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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 14.05.20

A ópera bufa da demissão de Centeno

António-Costa-e-Mário-Centeno-13-de-Maio-de-2020

Ao que parece era mesmo inevitável a injeção de 850 milhões de euros no Novo, no timing e nos termos em que foi feita.


Em 2017, 2018, 2019 e 2020 os pagamentos ao Fundo de Resolução do Novo Banco foram aprovados na Assembleia da República (PS, PCP e BE) através dos respetivos orçamentos de Estado, para serem concretizados no mês de maio de cada ano. Nestas condições e devido aos compromissos do estado português, os incumprimentos dariam origem a graves perturbações no sistema bancário, nada tendo a ver com eventuais auditorias ao Novo Banco.

 

Uma coisa é certa: não há qualquer norma que faça depender as transferências anuais para o Novo Banco de uma auditoria, nem surto epidémico que mude essa realidade. António Costa, sabia destas injeções de capital anuais até se esgotar o plafond, mas equivocou-se no Parlamento ao afirmar que não sabia ou esperava o final da Auditoria para antes dessa data.

 

Por seu lado, o ministério das Finanças fez aparentemente tudo o que tinha a fazer e só pecou por não ter informado o primeiro-ministro de que a operação iria realizar-se (um erro, ainda assim, menor, face à irresponsabilidade financeira de não a fazer, nas palavras de Mário Centeno).

 

O Presidente da República colocou-se ao lado do primeiro-ministro dizendo que ele «esteve muito bem» ao remeter nova transferência para o Novo Banco para depois de se conhecerem as conclusões da auditoria que abrange o período 2000-2018, com uma crítica implícita a Mário Centeno e com António Costa a sorrir, dizendo não ter «nada a acrescentar».


No Parlamento, a Direita e uma parte significativa da Esquerda julgou ter chegado o momento de derrubar Centeno, que ainda nesse mesmo dia, ouvido no Parlamento, foi claro ao dizer: «O Governo dessa altura demorou três anos para fazer uma Resolução. Esteve à espera dos banhos de 2014 para fazer a intervenção. Uma intervenção e uma Resolução incompetentes, sem qualquer auditoria, que criou um banco mau e um banco péssimo».

 

À tarde Rui Rio veio pedir a demissão do ministro das Finanças. À noite alguns comentadores de vários canais concentrados no telejornal comentavam que Centeno não tinha condições para se manter na pasta das Finanças e simultaneamente faziam prognósticos com o desfecho da reunião que à mesma hora juntava Centeno e o primeiro-ministro em São Bento.

 

Finalmente tudo acabou bem: os dois abandonaram S. Bento e uma nota esclarecia: «O primeiro-ministro reafirma publicamente a sua confiança pessoal e política no Ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno.»

 

Para já Costa "cativou" o seu ministro das Finanças. Mário Centeno terminará o mandato de líder do Eurogrupo a 13 de julho e aí ficará livre para sair definitivamente do Ministério das Finanças, por sua iniciativa, após a elaboração e aprovação do Orçamento Suplementar e após a realização do Conselho Europeu, sendo certo que sabe-se há muito que Centeno não ambiciona ficar por muito mais tempo à frente do Ministério das Finanças e nunca escondeu o desejo de substituir Carlos Costa no Banco de Portugal.

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