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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 05.05.14

A «saída limpa» é a solução possível.

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 (fonte:henricartoon)
O primeiro-ministro anunciou ontem ao país que Portugal vai deixar o programa de ajustamento financeiro sem uma rede de apoio internacional. O que significa que com o fim do «protetorado», anunciado para 17 de Maio, o País caminhará pelos seus próprios meios, embora não exista neste momento qualquer modelo de crescimento económico sustentado, não obstante ouvirmos com maior insistência, nestes últimos dias, a proclamação dos resultados das medidas governativas apresentados como troféus de caça.

O Governo empurrado pelos credores internacionais prontificou-se a fazer o ‘trabalho sujo’ — destruição das funções socias do Estado, desvalorização salarial, desregulação do mercado de trabalho, etc. — sem ter em conta as consequências económicas e sociais daí decorrentes: destruição do tecido económico, desemprego galopante, recessão económica, crescimento da dívida pública para níveis insustentáveis, emigração essencialmente das franjas mais jovens da população portuguesa.

A realidade mostra-nos que se tornou mais difícil escapar da situação de empobrecimento, para onde estes anos de austeridade extrema nos atiraram.
Num país sem um projeto de futuro consistente, sem uma coesão política forte, sem o mínimo de força institucional, a situação económica do País é hoje seguramente pior do que antes do no início do programa de ajustamento. Têm-nos sido feitas as mais variadas promessas. O problema é que num dia o governo diz que não haverá aumento de impostos, no outro diz que vai aumentar o IVA e a TSU, num dia afirma que não haverá mais despedimentos na função pública, noutro anuncia cortes no pessoal dos setores da educação e da saúde, num dia diz que teremos um programa de assistência noutro dia anuncia uma saída limpa.

Os portugueses já perceberam que as mistificações do atual Governo, designadamente a forma como sairemos do programa de assistência financeira são pura retórica. Até por que a questão não é o que quer o Governo, mas sim o que a União Europeia está disposta a conceder. Recorde-se que a Irlanda também estava a negociar um programa cautelar e em cima da hora surpreendeu com uma saída sem apoio financeiro. Os países do norte como a Alemanha, Holanda e Finlândia há muito que não vêm com bons olhos a ideia de dar mais dinheiro, ainda que sob a forma de um seguro, aos países do sul da Europa.

A saída limpa é, por isso, a solução possível. No entanto isto não quer dizer que Portugal ficará sem vigilância ou sem consolidação das contas públicas. Os credores vão manter as visitas a Portugal. Não o farão trimestralmente como agora, mas sim duas vezes por ano, até 2038. O FMI chama a este procedimento uma “vigilância reforçada” que serve para garantir o «êxito duradouro do regresso aos mercados, bem como a sustentabilidade orçamental».

Em Maio sairemos, formalmente, do programa de auxílio económico e financeiro (PAEF) para nos lançarmos na sorte dos mercados que, como sabemos, são implacáveis e manifestam uma voracidade atroz. Até aqui estávamos protegidos com um auxílio financeiro, mas no plano económico nada de estrutural foi acautelado. O governo garante que temos uma almofada financeira para o próximo ano. Mas será que podemos acreditar neste governo depois de ter feito sempre o contrário do que afirmou?