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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 01.06.14

A sobrevivência política de António José Seguro

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Na reunião da Comissão Nacional, António José Seguro anunciou que não se demite do cargo e surpreendeu todos ao defender, perante as hostes socialistas, eleições primárias para a escolha do candidato a primeiro-ministro.

As eleições primárias preveem que possam votar militantes bem como simpatizantes do PS, mas para que o partido as possa efetuar são necessárias alterações estatutárias. Do lado de António José Seguro é defendido que esta alteração possa acontecer em comissão política, desde que esta seja mandatada pela comissão nacional. Do lado de António Costa defende-se que isso não é possível, uma vez que o único órgão do partido com mandato para alterar os estatutos do partido é o congresso nacional.

Esta ideia de defender eleições primárias para a escolha do candidato do PS a primeiro-ministro foi inicialmente proposta por Francisco Assis, em 2011, tendo sido retomada em 2013 por um grupo liderado por João Tiago Silveira, tendo ambas as vezes a maioria dos socialistas rejeitado liminarmente esta solução.

Ora, não se entende muito bem a estratégia seguida por António José Seguro. Por um lado pede eleições antecipadas, várias vezes tem desafiado o primeiro-ministro a demitir-se para dar a palavra aos portugueses, mesmo na passada sexta-feira votou uma moção de censura que, caso fosse aprovada, levaria naturalmente à queda do governo. Por outro, recusa ouvir os militantes do seu próprio partido, escudando-se numa legitimidade estatutária que ele próprio blindou, diga-se, e que embora exista, não é menos legítima que a do governo continuar em funções até às próximas legislativas

Mas porque interessa agora a António José Seguro esta solução de primárias, já que as havia recusado no passado? Antes do mais, é uma proposta que inviabiliza a questão do congresso pretendido por António Costa e pelos seus apoiantes. A proposta apresentada hoje por Seguro, na reunião da Comissão Política, dispensa congressos e apenas diz respeito à escolha do primeiro-ministro, não à escolha do secretário-geral, situação algo confusa.

Pergunta-se: mas o que pode ganhar o atual secretário-geral com esta ideia? Bom, em primeiro lugar, segundo apoiantes seus, ganha iniciativa política. Ganha também tempo. A consulta proposta por Seguro, incluindo o tempo necessário para apresentação de candidaturas e campanha interna, dificilmente teria o seu epílogo antes do final do ano.

O plano arquitetado por Seguro passa ainda por agitar as estruturas do partido, um campo em onde se movimenta bem porque tem mais contacto com o chamado ‘aparelho’. Por sua vez, uma vitória nas distritais relegitimará o líder. E se ganhar as primárias para primeiro-ministro sairá vitorioso nesta batalha sobre o seu adversário. Por isso precisa de tempo para angariar apoios e apagar a imagem que vem deixando desde a noite eleitoral do passado domingo. O que se joga neste plano de António José Seguro é efetivamente a sua luta pela sobrevivência política. É que à semelhança de Passos Coelho, Seguro não existe para lá da política. Mas o tempo também se pode virar contra ele e ter um efeito perverso, uma vez que poderá servir para que fique submergido da cena política, atropelado pelos acontecimentos ou que os seus fiéis apoiantes finalmente percebam que Seguro, com a sua inqualificável conduta, ao recusar uma solução rápida para a crise no partido, conduzirá o PS à mais estrondosa derrota eleitoral de sempre.

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