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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 08.11.20

A Vitória de Joe Biden

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Aos 77 anos, Joe Biden, foi anunciado como o 46º Presidente dos EUA ao alcançar 273 votos, superando os 270 necessários para a eleição do presidente americano.

 

Nascido na Pensilvânia em 1942, no seio de uma família católica, Biden adotou Delaware como sua casa quando se mudou para lá com a família em 1953. A gaguez atrapalhou-o na infância, mas aprendeu a aperfeiçoar a fala, recitando poesia em frente ao espelho.

 

Formou-se em história e ciência política na Universidade de Delaware e depois em direito na Universidade de Syracuse, exercendo advocacia durante três anos. Já nessa altura a sua ambição era a política, chegar à Presidência. Em novembro de 1972 entrou na política antes de completar 30 anos para ser um dos mais jovens senadores de sempre.

 

Na política desde 1970, Joe Biden sempre foi uma figura discreta e reservada, não obstante deter dos currículos mais extensos na política do seu país, com 36 anos de carreira como senador e oito anos na administração de Barack Obama.

 

Persistente e determinado, Joe Biden nunca desistiu da luta política, nem mesmo depois de um aneurisma o ter afastado da corrida presidencial em que George Bush foi eleito. Seguiu sempre o sábio conselho do pai: «não importa quantas vezes um homem cai, mas a rapidez com que se levanta».

 

A vida familiar foi marcada pela tragédia, com a morte da sua primeira mulher, Neilia Hunter, poucos dias antes do Natal, e de dois dos seus filhos. Os outros dois filhos, Beau e Hunter, sobreviveram.

 

Cinco anos depois, Joe Biden casou com Jill Jacobs e o casal teve uma filha em 1981, o que permitiu ao político recuperar a sua estabilidade pessoal.

 

Em 2015, nova tragédia. O filho, Beau morre de tumor cerebral, aos 45 anos e o filho mais novo passou décadas a lutar contra o vício do álcool e das drogas, chegando a ser dispensado das suas funções na Marinha dos EUA em 2014, após lhe ter sido detetada cocaína em análises ao sangue.

 

Joe Biden prepara-se agora para vir a ser o 46º Presidente dos EUA e terá agora uma tarefa hercúlea para começar a delinear as linhas orientadoras da recuperação da «alma da nação», nas palavras do próprio, fraturada e dividida nos últimos quatro anos pela liderança de Donald Trump. Combater a covid-19 num dos países mais afetados pela pandemia, continuar a recuperar a economia e promover as relações internacionais deverão ser prioridades.

 

Ao seu lado terá Kamala Harris, senadora pela Califórnia e filha de imigrantes jamaicanos e indianos, a primeira mulher e a primeira negra a ocupar o cargo de vice-Presidente.

 

Entretanto os americanos rejubilaram com a vitória dos democratas e saíram à rua para festejar. «Estamos a ver, por todo o país uma expressão renovada de fé de que amanhã vamos ter um futuro melhor», declarou Biden.

 

No seu discurso prometeu «ser o presidente que não vai dividir, mas sim unificar. Que não vê Estados vermelhos nem Estados azuis, só vê os Estados Unidos». «E vou trabalhar, com todo o coração, para conquistar a confiança de todos vós”» garantiu Joe Biden, dizendo querer «reconstruir a alma da América».

 

Ao contrário do que é habitual nestes discursos, Biden não fez nenhuma referência ao candidato que perdeu a eleição — numa altura em que Trump recusa aceitar o resultado eleitoral e promete lutar na justiça.


Biden pode não ser um político empolgante. Mas é equilibrado, honesto e responsável. Estas características, simples e banais, não são de somenos e para quem vai suceder a Trump tornam-se em qualidades que fazem toda a diferença.

 

Fez um discurso inteligente, na forma como soube falar ao coração de todos os americanos e apelar à unidade no país e garantir que, doravante os EUA voltarão a estar no caminho do prestígio,  do respeito internacional e  dos valores da democracia.

 

A vitória de Joe Biden simboliza o reencontro da América com a democracia dos valores e um importante sinal para o mundo de que a politica não pode ser construída com base em fake news, fraudes morais, desrespeito pelas minorias, oportunismo tático, desprezo pelo clima e desconsideração pelos valores sociais, económicos e políticos.