Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 17.05.14

Adeus, Troika

narrativadiaria

 

 (imagem do Público)

Termina hoje, formalmente, o período de vigência do Programa de Ajustamento acordado em 2011 entre o governo português e a troika. Esta intervenção externa aconteceu porque o Estado português deixou de poder financiar-se nos mercados. Três anos volvidos e aqui chegados, após o cumprimento do programa o que verificamos? Que nada de estrutural foi alterado, e que os bloqueamentos na sociedade portuguesa são hoje ainda maiores. Que o país está muito mais pobre que há três anos e que os portugueses naturalmente também. À exceção dos mais ricos, que viram as suas fortunas aumentar consideravelmente.

De 2011 a 2013 o défice orçamental foi reduzido em 6,5 mil milhões de euros mas à custa do aumento da receita fiscal e da redução das despesas com pessoal. Os desempregados, os trabalhadores em funções públicas e os reformados e pensionistas sentiram na pele os efeitos da contração orçamental. Nos últimos três anos, as taxas de IRS foram agravadas fortemente assim como o IVA.

O programa de ajustamento contribuiu para uma maior recessão que o esperado e deixou o País afundado numa dívida pública que chega a 130% do PIB; o endividamento das famílias e empresas atinge 280% do PIB e promete enfraquecer o sistema financeiro por muitos anos; e os quase 800 mil desempregados, dos quais 40% não conseguem emprego há mais de dois anos, ameaçam criar uma debilidade estrutural na economia, a mesma que, nos últimos três anos, obrigou cerca 200 mil a 300 mil pessoas a emigrar.

A reforma do estado foi eternamente adiada. Quanto às chamadas reformas estruturais, prosseguiu-se com a flexibilização do mercado laboral. Tudo o resto permaneceu na mesma. Se os objetivos não foram atingidos, seja na estrutura da economia seja na forma de organização do Estado, como é possível ser apresentado como um caso de sucesso?

É apenas possível porque a União Europeia mudou. Começou no plano financeiro, pelo BCE, quando impôs aos mercados que o euro seria defendido, custasse o que custasse e serviu para acalmar os mercados financeiros. A recuperação económica dos EUA, da China e do Japão também teve repercussões neste domínio.

No plano político, a Alemanha percebeu era preciso rapidamente começar a encontrar histórias de sucesso para os países intervencionados. Não foi por acaso que no início do ano era dado como certo um segundo resgate. Era claramente inevitável. O que é que se passou desde então? Que medidas foram tomadas para inverter a situação? Nenhumas. Não existe uma única medida do governo que tenha produzido este volte-face!

Apenas as taxas de juro desceram e a previsão para o crescimento económico passou dos 0,8 – em que ninguém sequer acreditava – para 1,5%. Mas, como bem sabemos, as taxas de juros não desceram por termos resolvido os problemas estruturais. Até porque o resultado positivo nas contas externas não decorre de qualquer alteração estrutural, mas apenas da contração do mercado interno. Que por um lado obrigou as empresas a procurar a respetiva compensação nas exportações e, por outro, fez cair as importações. Tudo isso aconteceu apenas e só porque a economia europeia saiu da recessão e começou a crescer, mas também graças ao chumbo do corte das pensões pelo Tribunal Constitucional (TC). Esse dinheiro, não tendo sido objeto de cortes nos salários dos pensionistas, permitiu travar a contração do consumo e do PIB por essa via. Aliás, já em 2013 se havia verificado um comportamento semelhante: o TC chumbou os cortes nos subsídios de Natal e férias, e isso foi uma boa notícia para a economia.

Assim, estes três anos longe de poderem ser encarados com um caso de sucesso foram, apenas, mais uma oportunidade perdida e de sacrifícios em vão. E a história de sucesso que tentam passar, como sendo um trunfo desta maioria e que irá certamente ser usada nesta campanha eleitoral até à exaustão é, como constatamos, uma enorme falácia.