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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 22.07.14

Ainda a questão da natalidade

narrativadiaria

 

 (imagem do google) 

Já aqui tinha falado natalidade. Contudo, dado que o assunto voltou a estar na ordem do dia, parece-me importante refletir um pouco mais sobre as causas que estão na sua génese.

O envelhecimento da população é um dado preocupante não apenas em Portugal como na maioria dos países europeus. A principal causa é a redução da natalidade que se tem verificado ao longo das últimas décadas e que tem aumentado nos últimos anos, não assegurando a renovação das gerações.

Este facto conjugado com o aumento da esperança de vida leva a que o número de idosos ultrapasse o numero de crianças, o que tem efeitos nefastos na economia, nas receitas fiscais que permitem financiar o Estado e nos regimes de pensões. A situação é de tal forma grave que ao ritmo a que a população portuguesa está a diminuir, admite-se que, se nada for feito, em 2050, mais de 30% da população nacional terá uma idade superior a 65 anos numa população total da ordem dos 8,7 milhões de pessoas, ou seja longe dos dez milhões com que nos habituámos a contar. A crise não explica tudo e alguma coisa deve ser imputada aos padrões de vida dos portugueses.

A grande mudança na natalidade deu-se quando um filho deixou de ser uma inevitabilidade e passou a ser uma decisão. A partir desse momento em que as pessoas puderam planear a chegada de um filho, passaram a ponderar dar este passo pesando vários fatores. Desde logo, os relacionados com a estabilidade económica, com a situação profissional e com os apoios familiares. Passa a existir uma conciliação da vida familiar com a profissional: organizar a vida familiar e profissional com os horários das creches, escolas e infantários. Há toda uma logística que é necessário gerir e que nem sempre é fácil, sobretudo se não se puder contar com um bom suporte familiar.

O paradigma entretanto alterou-se mais recentemente com os fenómenos migratórios internos, os quais tiveram impacto na desestruturação das famílias e vieram adiar o projeto da maternidade.

Depois, há todo um estereótipo construído à volta da ideia de que para ter um filho é necessário existir estabilidade conjugal, pessoal, profissional, emocional e económica. Capacidade para dar boas condições de vida, de saúde, de educação, de atenção, possibilidade de disponibilizar atividades extracurriculares e recreativas às crianças. Muitas vezes, perante tantos requisitos, muitos recuam. Além disso, os relacionamentos hoje são mais instáveis e a grande maioria dos casamentos já não são para toda a vida.

A juntar a todos estes fatores existe ainda um outro, não despiciendo: de há uns 40 anos, as expectativas da sociedade em relação à natalidade mudaram. Vivemos hoje numa sociedade altamente materialista e individualista, onde predomina uma cultura hedonista, do prazer e do efémero que tem alguma aversão ao compromisso, pois considera-o incompatível com aqueles valores.

Sabemos que ter filhos implica a assunção responsabilidades, que exige sacrifícios, disponibilidade, que obriga prescindir de muitas coisas em prol dos filhos. Isto faz, obviamente, com que muitos portugueses adiem a decisão de ter filhos ou de aumentar a prole.

Todos estes fatores conjugados, aliados à perda de poder de compra, cortes de salários, perda de benefícios fiscais e de abonos de família serviram para provocar um recuo na taxa de natalidade, abafada apenas, nos últimos anos, pela vinda para Portugal de imigrantes que mitigaram o problema.

Do meu ponto de vista, a natalidade trata-se de um problema com raízes sociais e culturais que vem sendo agravado nos últimos anos por problemas de cariz económico. As razões da baixa natalidade radicam num modelo de sociedades desenvolvidas que nenhum pequeno incentivo do Estado será suficiente para inverter.

Por isso mesmo o Estado para intervir não poderá apenas olhar para um dos lados da equação, subvencionando a natalidade. Tem de existir uma ação concertada em vários setores para que haja uma estrutura equilibrada e renovada da sociedade. Tem que existir sobretudo uma mudança de mentalidades. Mais útil seria que os governos vissem na baixa natalidade, não um problema circunstancial, mas um dado estrutural. A promoção de políticas de natalidade é essencial para o futuro de Portugal e não pode ser manietada com voluntarismo e precipitação.