Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 04.05.19

António Costa ameaça demitir-se

narrativadiaria

antonio-costa.jpg

O primeiro-ministro, António Costa, ameaçou demitir-se, caso o diploma dos professores seja aprovado na votação final global, numa declaração feita ontem ao País, depois de se reunir com o Presidente da República.

 

António Costa foi claro quanto às eventuais consequências da aprovação do diploma: criação de um encargo adicional de mais 340 milhões de euros;  aplicação deste diploma ao ano de 2019 que implicaria necessariamente um orçamento rectificativo que quebraria a regra da estabilidade e rigor orçamental; a extensão deste diploma aos demais corpos especiais alcançaria os 800 milhões de euros; a aplicação destas regras aos professores apenas seria injusto para os outros profissionais; só seria possível com cortes nos serviços públicos ou aumentos de impostos.

 

PSD e CDS vieram, de imediato, reputar esta atitude de  ‘golpe de teatro’,  de ‘chantagem politica’, de ‘crise artificial’ e alguns comentadores consideraram mesmo um golpe de génio do primeiro ministro, numa jogada política para antecipar eleições legislativas e encobrir uma campanha das europeias que lhe está a correr mal.

 

Julgo que aqui não houve taticismo político de Costa, ainda que com esta escolha as coisas lhe tenham corrido francamente bem. Penso que um dos argumentos de peso para Costa ter tomado a decisão foi despoletado por Mário Centeno, sustentáculo deste governo,  que terá  ameaçado bater com a porta, caso o diploma fosse aprovado na AR.

 

Qualquer uma das consequências de aprovação desta iniciativa legislativa compromete e condiciona a governação futura e constituirá uma ruptura irreparável com os compromissos assumidos. Ora, sendo Mário Centeno presidente do Eurogrupo, tal medida não cairia muito bem em Bruxelas. Costa não quis contrariar a vontade de Centeno e afinou pelo mesmo diapasão. 

 

Mas, ao tomar tal decisão, Costa marcou pontos relativamente ao seu rival direto: mostrou que o partido das contas certas e do rigor orçamental já não é o PSD, mas sim agora o PS. Costa cola o estigma do despesismo – historicamente colado aos governos do PS – aos restantes partidos, ainda que tenha feito questão de destrinçar as suas politicas e convicções. Para o primeiro-ministro, Bloco e PCP votaram em coerência com o que já haviam votado no passado. Já PSD e CDS saem bastante mal na fotografia, porque este súbito amor demonstrado pela causa dos professores, não é senão um oportunismo de circunstância, movido apenas pelo populismo e pelas eleições que vão ocorrer a breve trecho.


Como é pouco provável que o PS tenha maioria absoluta nas próximas legislativas, ocorram elas quando ocorrerem, significa que precisará sempre da muleta de outro(s) partidos para governar. Costa aqui a não fechar totalmente a porta aos partidos de esquerda. Resta saber quem lhe quer dar a mão neste contexto.

 

A ver vamos como  vai ser a votação final global e qual a reação do Presidente da República. Quatro coisas podem acontecer se o governo bater com a porta: Marcelo pode não aceitar a demissão;  não dissolver a Assembleia da República, e o governo ficar em gestão;  ouvir os partidos para encontrar uma solução de Governo dentro do atual quadro parlamentar ou dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas.

 

 

1 comentário

Comentar post