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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 05.02.20

As declarações de Abel Matos Santos

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As imagens contidas no cartoon de Cristina Sampaio no Público podem ser injustas para o CDS, porque «um dirigente não faz uma instituição», como bem referiu Adolfo Mesquita Nunes, mas as palavras proferidas por Abel Matos Santos que integrava a nova Comissão Executiva do partido são demasiadamente graves e elucidativas da viragem do CDS à direita mais radical.

 

Toda a polémica com Abel Matos Santos teve início com um artigo do Expresso, há uma semana, que revisitava as publicações e comentários no Facebook, entre 2012 e 2016, do antigo porta-voz da Tendência Esperança em Movimento (TEM), o mini-Tea Party centrista, nos quais chamava ao cônsul Aristides Sousa Mendes, que emitiu milhares de vistos para judeus durante a II Guerra Mundial, “agiota de judeus”, fazia odes a Salazar e qualificava a PIDE como “uma das melhores polícias do mundo”.

 

Questionado por aquele semanário, Abel Matos Santos refere que todas as publicações tiveram "o seu contexto", enquanto que a direção do CDS diz desconhecer as declarações – e lembra que o pensamento do dirigente já era conhecido do partido. Ora, se era conhecido por que razão o convidaram a fazer parte da Comissão Executiva?

 

Nas redes sociais as reações não tardaram, criticando veementemente o pensamento de Abel Santos. Perante a situação, no final da semana passada, o ex-vice-presidente do CDS-PP e ex-ministro António Pires de Lima exigiu  publicamente ao novo líder do partido, Francisco Rodrigues dos Santos, que retirasse a confiança política a Abel Matos Santos.

 

A polémica estava instalada. Francisco Rodrigues dos Santos ainda tentou, numa primeira fase, segurar o seu dirigente, mas, perante a pressão interna e externa, não teve outro remédio senão ceder. Em comunicado divulgado a comissão executiva dos democratas-cristãos explicitou que no partido «não há espaço para o racismo, para a xenofobia, para o antissemitismo, para a intolerância ou para qualquer saudosismo de regimes que não assentem na liberdade», que teve como consequência a demissão de Abel Santos.

 

Abel Matos Santos abandonou a direção do CDS, ao fim de duas semanas. O psicólogo-clínico integrou as listas apresentadas pelo atual líder, tendo sido eleito em congresso vogal da comissão executiva do CDS-PP.