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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 04.08.14

Banco Bom e Banco Mau

narrativadiaria

O Banco Espírito Santo (BES), tal como o conhecíamos, extinguiu-se e foi subdividido: o ‘banco mau’ passará a deter as dívidas do grupo GES, créditos de empresas em dificuldades, assim como a participação maioritária no BES Angola; para o 'banco bom' será transferido o essencial da atividade até aqui desenvolvida pelo BES, caso dos depósitos. Ficarão também neste banco todos os trabalhadores, assim como restantes recursos, caso das agências para já ainda com a imagem do BES.

Tendo em conta que um banco da dimensão do BES não poderia ser liquidado, devido ao risco sistémico, havia três opções possíveis: a nacionalização do banco, a recapitalização e, por fim, a resolução.

O Banco de Portugal optou pela terceira hipótese, por considerar que as duas primeiras significavam que o Estado teria que assumir os riscos sem conhecer ainda a real dimensão do problema. Por outro lado, argumentou o regulador que a via da resolução está em linha com a legislação europeia e permite separar os ativos bons dos problemáticos.

Para resolver a situação criada pelo BES, serão injetados no Novo Banco 4.900 milhões de euros, através do Fundo de Resolução bancário. Este fundo, criado em 2012, só dispõe 380 milhões de euros, pelo que a solução encontrada passa por ir buscar o valor restante ao dinheiro da troika, destinado ao setor financeiro, através de um empréstimo ao fundo de resolução, existindo também uma contribuição extraordinária dos outros bancos que operam em Portugal, que poderá ascender a cerca de 100 milhões de euros.

Segundo o comunicado do BdP, a decisão «garante a segurança dos depósitos que tinham sido constituídos» junto do BES, não sendo «afetados quaisquer direitos legais ou contratuais dos depositantes». E os depósitos serão «integralmente transferidos para o Novo Banco».

Quanto aos créditos, as condições contratuais dos créditos do BES transferidos para o Novo Banco "não se alteram".

O Banco de Portugal garante ainda que não há implicações das medidas hoje anunciadas para os clientes do BES Investimento, BEST, BES Açores, ESAF, BES Vida e de várias sucursais, incluindo Espanha, Macau, Nova Iorque e Londres.

Com a solução encontrada pelo Banco de Portugal, o Novo Banco arranca hoje e terá rácio de capital de 8,5%. Caberá à administração do Novo Banco encontrar, de futuro, investidores que queiram entrar no capital da instituição.

Ora, um banco vive da confiança dos depositantes e dos seus clientes e este Novo Banco não inspira confiança nenhuma. Desta feita não consigo pensar em ninguém que queria depositar neste Novo banco.

Em relação aos acionistas, a situação é muito penalizadora. Investiram num banco, que até há dias as diversas autoridades garantiam estar absolutamente sólido. Há pequenos investidores que investiram as poupanças de uma vida em ações do BES e ficaram completamente defraudados nas suas expectativas.

Quanto ao regulador, penso que Carlos Costa não sai muito bem deste filme. É patético que tenha andado desde Setembro de 2013, tentando isolar o BES dos problemas do GES e cometidos erros de principiante.

Por tudo isto o escândalo do BES é também um consequência da inoperância do BdP e da ineficácia demonstrada pela Troika.