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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Qui | 27.09.18

Caso do material roubado em Tancos

 

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O furto de material militar na base de Tancos em junho de 2017 veio por em causa a Defesa e as Forças Armadas, colocando a tutela política, nomeadamente o ministro da Defesa debaixo de fogo.

 

Um dos momentos mais caricatos aconteceu na sequência de uma entrevista do ministro da Defesa, na qual Azeredo Lopes admitiu, numa alusão à falta de provas, que no limite podia não ter havido furto. As declarações provocaram polémica não só a nível político, mas também no Exército e nas entidades que investigavam o caso.

 

O material militar apareceu a 18 de outubro, num campo aberto, na Chamusca, a 21 quilómetros de onde tinha sido furtado quatro meses antes.

 

O material foi recolhido pela Polícia Judiciária Militar, que disse ter tido a colaboração da GNR de Loulé, e só depois deu conhecimento à Polícia Judiciária, que liderava a investigação.

 

Só que, na relação do material encontrado havia uma caixa com 200 petardos a mais, como revelou o próprio chefe do Estado-Maior do Exército numa conferência de imprensa, para dar conta do final das operações de esvaziamento dos paióis de Tancos.

  

Agora, um ano após o furto de armas em Tancos, sem que se conhecesse ao certo o que se passou, eis as primeiras vítimas: oito detidos - quatro elementos da Polícia Judiciária Militar (entre eles o próprio diretor), três elementos da GNR e um civil (que se crê ter sido o autor do furto). Estão indiciados por uma longa lista de crimes: associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas.

 

O mais curioso é que a detenção destes suspeitos teve a ver não tanto com o roubo das armas em Tancos, mas com a sua devolução na Chamusca que parece ter sido, afinal, encenada.

 

A descoberta do material não foi o fim, mas o princípio de uma nova investigação no caso de Tancos. Os procuradores do MP e PJ continuaram o seu trabalho na senda do suspeito do roubo. Chamaram-lhe Operação Húbris, designação que deriva de um conceito grego e que se aplica a tudo o que ultrapassa os limites.

 

Sabe-se agora que o autor do furto foi um homem, referenciado pelas polícias como traficante de droga e de armas e terá contado com a cumplicidade quer de elementos da GNR, quer da Polícia Judiciária Militar para devolver o material furtado. Ter-se-á valido de informações privilegiadas por parte de ex-colegas para conseguir tirar o material de Tancos.

 

Assustou-se, contudo, com a repercussão do caso e quis devolver o material roubado. Para tal, contactou um ex-companheiro, militar do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé. Este terá falado com um superior, que contactou elementos da PJ Militar. O plano era a PJ Militar ficar com os louros da descoberta do material furtado e, em troca, encobria-se a autoria do furto. O Ministério Público e a PJ acreditam que a PJM desencadeou «uma guerrilha corporativa» para impedir a identificação dos autores do roubo das armas de Tancos.

 

Esperemos que agora, no meio desta trapalhada, se possa chegar à verdade sobre o que aconteceu, de facto, sobre este caso.