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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 10.03.14

Cavaco Silva faz «aviso à navegação» sobre os riscos de uma «saída limpa»

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(fonte: henricartoon)

Como já é tradição, a meio do segundo mandato, o Presidente da República, Cavaco Silva deu a conhecer alguns capítulos do seu Roteiros VIII, o documento que reúne as intervenções do Presidente da República ao longo do oitavo ano do seu mandato. Este ano o tema incidiu sobre «o período pós-troika, aliás um tema muito caro a Cavaco Silva.

A ideia mais forte deixada pelo Presidente no documento tem a ver com a austeridade que, na sua opinião, não termina em 17 de maio deste ano. Permanecerá, por cá,  pelo menos mais 20 anos.

Seguindo o raciocínio do Presidente da República, mesmo que Portugal consiga todos os anos um excedente primário de 3% (e num cenário de crescimento anual do PIB nominal de 4% e com juros da dívida de 4%), só em 2035 é que o país conseguirá atingir um rácio da dívida pública de 60% do PIB, um limite imposto por Maastricht e com o qual Portugal se comprometeu ainda mais ao subscrever o Tratado Orçamental.

Esta afirmação não deixa de ser surpreendente e por isso mesmo teve as mais variadas reações dos partidos da oposição. Interessante seria também percebermos em que estudos o Presidente se apoiou, ou se porventura estará na posse de algum tipo de informação que os portugueses desconhecem.

Outra novidade revelada é o facto de Cavaco preferir um novo programa cautelar com uma rede de segurança, ao invés de uma saída limpa, apresentando como fundamentos a «volatilidade dos mercados» e a «falta de consenso político»  que, como se sabe, contradiz  as intenções manifestadas pelo Governo e pelas instâncias europeias que almejam uma saída limpa de Portugal, para a exibir como uma espécie de troféu. Acresce que Angela Merkel tem dúvidas que um programa cautelar  «passe», sem mais, no parlamento alemão (bem como no parlamento finlandês). Por isso, vai insistir numa saída limpa, à semelhança do que fez com a Irlanda.

Note-se que o caso irlandês que foi apresentado como uma caso exemplar e uma vitória do governo de Dublin, que a todos apanhou de surpresa, foi uma condição concertada por Berlim e pela Troika.  Passos e o seu Governo apostam numa saída limpa, para a poderem exibir como sucesso das suas políticas e assim conseguirem arrecadar dividendos políticos nas próximas eleições, muito embora mais não estejam do que a cumprir a vontade imposta pela Alemanha e pela Troika.

Esta ideia não deixa de ser politicamente relevante, até porque se no futuro as coisas não correrem de feição para o executivo, Passos Coelho poderá não ter o respaldo político necessário do Presidente, ficando isolado, sem cooperação institucional que lhe valha. Nesta perspetiva o prefácio do Roteiros servirá como argumento para Cavaco repetir a frase que tanto aprecia: «eu já tinha avisado».