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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 16.06.20

Centeno e o Banco de Portugal

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Mário Centeno foi o ministro das Finanças que mais tempo esteve em funções nos últimos anos. Foi simultaneamente presidente do Eurogrupo (ainda é!), conseguiu baixar o défice orçamental de Portugal e alcançou o primeiro superavit orçamental português desde 1973 – foi, sem sombra de dúvidas, o mais competente ministro das Finanças em democracia, daí ser apelidado como o "Ronaldo do Ecofin", pelos seus parceiros europeus.

 

Em 2018 foi considerado o melhor ministro das Finanças do ano na Europa pela revista The Banker, um suplemento do Financial Times e num estudo de opinião realizado em Portugal como o ministro com maior índice de popularidade, coisa rara para um ministro das Finanças. Um lugar na história ninguém lhe tira.

 

Sabia-se que a sua saída estava iminente e que a questão do Novo Banco veio acelerar a sua decisão. Saiu pouco dias antes de uma reunião com os parceiros da zona euro e de lhes comunicar a decisão de abandonar o Eurogrupo.

 

É legítima a sua ambição de ser o próximo governador do Banco de Portugal (BdP), cargo para o qual terá certamente o perfil técnico adequado, embora perceba os conflitos de interesses políticos subjacentes entre Centeno governador e Centeno ministro das Finanças.

 

Agora o que me custa mesmo entender é que no mesmo dia em que António Costa comunicou ao país a decisão de que Mário Centeno iria abandonar o governo, o Parlamento se tenha apressado a preparar um projeto de lei, de iniciativa do PAN,  que impõe um período de nojo de cinco anos (quatro anos de uma legislatura mais um) de modo não permitir que ministros das Finanças transitem diretamente para o BdP, aprovada por todos os partidos, exceto o partido socialista.

 

As intenções do PAN devem sair frustradas, porque a lei não deverá chegar a tempo de criar um travão legal para Mário Centeno, mas o que é lamentável foi o facto de a Assembleia da República ter feito uma lei ad hominem, com o único intuito de travar a ida de Centeno para a Supervisão.

 

Como o primeiro-ministro referiu, «num Estado de direito democrático são inadmissíveis leis com a função de perseguir pessoas. Não costumo comentar iniciativas parlamentares, mas pela gravidade dessa iniciativa não posso deixar de dizer que é absolutamente incompatível com o Estado de direito democrático», afirmou António Costa.

 

A Direita não suporta Centeno porque ele alcançou o que os seus ministros do PSD e CDS nunca conseguiram e tece-lhe duras críticas, nomeadamente o facto de ter agora abandonado o barco numa altura de recessão económica. Alegam que os resultados económicos alcançados foram num contexto favorável de crescimento económico e de taxas de juro zero ou negativas, à custa do baixo investimento público, da degradação os serviços públicos e do aumento da carga fiscal e das cativações. Poder-se-ia sempre contra-argumentar que em circunstâncias idênticas, no passado, e contextos económicos favoráveis, outros não conseguiram os mesmos resultados.

 

De salientar, ainda, que não me lembro de PSD e CDS critarem a ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, quando aceitou o cargo de diretora não-executiva de uma financeira de Londres, a Arrow Global que tem como clientes o Santander, o Banif, o BCP, Montepio, entre outros ou de terem levantado sequer a hipótese de existir algum conflito de interesses!

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