Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sex | 13.05.16

«Costa 3, Ferreira 0»

narrativadiaria

original.jpg

 «Estive a ver a entrevista de António Costa na SIC.

 O que mais me chamou a atenção foi a postura do entrevistador, o pafioso Gomes Ferreira.

 Nenhuma das perguntas que trazia na manga tinha implícitos quaisquer pressupostos de sucesso para o Governo e daí – esquece o personagem -, para o País. O estilo foi mais ou menos este:

Dr. António Costa há uma cobra a sair do bolso da Comissão Europeia, por causa do deficit excessivo, como pretende matá-la? Eu acho que não tem fisga para tanto.

Dr. António Costa o desemprego está a aumentar, as exportações caem, o investimento cai, em suma, o senhor diz que não é bem assim e que as causas não tem a ver com a atual governação e que o crescimento vai ocorrer mas eu não acredito.

Dr. António Costa, tem-se dado muito bem com o Dr. Marcelo, mas olhe que nessa história dos colégios privados, eu acho que ele vai discordar de si, e vai-se acabar a lua-de-mel.

 Dr. António Costa, quanto quer receber pelo Novo Banco? A banca quer que o Novo Banco seja nacionalizado porque lhe convém, e o Governo vai fazer a vontade aos banqueiros. Aí está mais uma manobra oculta aos olhos dos portugueses.

Em suma, o pafioso Gomes Ferreira mais parecia o chefe da oposição a querer destruir as explicações e os argumentos do Primeiro-Ministro. Seria ele capaz de fazer uma entrevista, no mesmo tom truculento a Passos Coelho ou ao irrevogável Portas?

A Direita, quando as coisas correm bem quer que elas corram menos bem, quando as coisas correm menos bem quer que as coisas corram mal. Espécie de arautos da desgraça, trombeteiros do apocalipse.

O que esta solução governativa veio mostrar, com o ineditismo da aliança à esquerda, foi que a Direita só poderá vir a ser poder de novo em Portugal num hipotético cenário de catástrofe financeira e económica. Pois bem, é esse o cenário que a Direita almeja e para o qual trabalha com ímpeto e afã, quer no plano nacional quer no plano internacional, de forma a poder regressar ao poder que perdeu e às prebendas a que acha que tem direito, por direito de berço ou de unção divina.

Como a realidade nunca mais sai do sítio, como a desgraça nunca mais se concretiza, a Direita empurra o que pode para que a realidade funerária que ela adora se concretize.

António Costa foi respondendo a todas as provocações, implícitas ou explícitas, com a bonomia de um santo homem, tendo como objetivo desmontar a narrativa da desgraça, substituindo-a por uma proclamação de serenidade e confiança, que é o que o País precisa, e os portugueses merecem.

Dou os meus parabéns ao Primeiro-Ministro. Eu não teria paciência para aturar o pafioso Ferreira com a tranquilidade e a boa cara com que ele o fez. À primeira pergunta teria posto logo o personagem em sentido, ainda que reconheça que isso seria um grave erro político que a Direita exploraria até à náusea, e que o Ferreira se esforçou por provocar com insistência.

Mas claro, ó Ferreira, ainda és muito novinho para conseguires tourear o António Costa e conseguires tirá-lo do sério. Ainda andavas de cueiros e já ele tinha quilómetros de debates políticos, entrevistas e declarações públicas.

Eu se fosse ao Balsemão despedia-te, ó Ferreira, porque acabaste por dar um grande tiro no pé, já que o resultado do prélio foi: Costa 3, Ferreira 0 e virou-se o feitiço contra o feiticeiro. A geringonça está de boa saúde e recomenda-se e no horizonte não se vê borrasca a não ser aquela que a Direita catastrofista teima em anunciar todos os dia».

(Estátua de Sal, 11/05/2016)