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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 10.05.14

«Da probreza do debate europeu»

narrativadiaria

«De cada vez que nos aproximamos de eleições, o coro de carpideiras do regime dá início à ladainha costumeira sobre a ameaça de uma abstenção elevada ou o afastamento cada vez maior entre eleitos e eleitores. E a pouco mais de duas semanas das europeias, aí estão elas de novo, sem perceberem - ou não querendo perceber - que a única razão porque isto acontece é da sua exclusiva responsabilidade.

Se atendermos àquilo que tem sido a pré-campanha para as europeias de 25 de maio, compreendemos as causas para o alheamento e distanciamento dos portugueses. O discurso político, ao invés de elencar propostas concretas e alternativas que permitam aos cidadãos fazer escolhas, é de uma vacuidade chocante. De um lado, dizem-nos, sem mais, que a opção é entre quem nos conduziu à bancarrota e quem nos ofereceu a saída limpa - por mim, aquilo que vejo é a saída encardida de que falava esta semana o Baptista-Bastos. Do outro, diz-se que do que se trata é de pôr fim ao "extremismo" que tomou conta do PSD e, por consequência, da maioria que governa. De um lado, há os que acenam com a promessa de baixar impostos e a intenção de subir o salário mínimo meses depois das eleições, como se o rating das palavras que proferem fosse diferente do da República portuguesa. Do outro, apela-se ao voto maciço e útil, ao mesmo tempo que, por exemplo, se abstêm inexplicavelmente na votação de uma proposta de alargamento do subsídio social de desemprego. Em síntese, replicam-se argumentos e truques de propaganda barata e pequena política em vez de atender àquilo que é a vida concreta das pessoas e o desespero da vida real.

É certo que estas eleições são para o Parlamento Europeu. Mas não é menos verdade que, apesar disso, haverá fortes e profundas consequências nacionais a retirar delas.

Enquanto cidadão, aquilo que me interessa ver discutido e na agenda das prioridades dos partidos políticos é o que propõem, de concreto e credível, sobre aquilo que mais me aflige. Importa-me saber, por exemplo, que solução é defendida, no quadro europeu, para resolver o problema do controlo e pagamento da dívida que nos sufoca. Sim, porque ninguém tem dúvidas - mesmo aqueles que diabolizam ou ignoram taticamente o recente "manifesto dos 70" - de que, mais cedo do que tarde, a dívida terá de ser reestruturada ou renegociada. Interessa-me ouvir o que é que me propõem, no quadro europeu, para combater o desemprego que, em Portugal, e por mais habilidades estatísticas que nos impinjam, é, em termos reais, de quase 20% em vez dos 15,1% anunciados pelo INE. Quero que me digam que soluções têm para, no quadro europeu, garantir o Estado social, assegurar um regime de pensões sustentável e de confiança, defender um Serviço Nacional de Saúde que é suposto ser financiado, também, pelos nossos impostos. Desespero por ideias sobre como é que, no quadro europeu, seremos devolvidos a uma trajetória de crescimento e prosperidade que garanta a criação de emprego. E angustia-me não ouvir falar os principais concorrentes a estas eleições sobre que ideias defendem para reformar as instituições e salvar o projeto europeu. E que modelo de Europa é que se propõem construir, que tem de ser, necessariamente, muito mais do que uma união bancária e uma união económica e monetária em que manda quem pode - a Alemanha - e obedece quem deve.

E é este o momento para travar este debate. Honra seja feita ao PCP que, concordando-se ou não, é a única das forças partidárias que se apresenta com um programa identitário claro e inequívoco do caminho que propõe. 

A verdade, porém, é que nada disto é discutido. Continuamos, alegremente, a assistir ao eterno jogo de passa-culpas entre os partidos que sustentam o Governo e os da oposição. E com ele ao empobrecimento da democracia e do discurso partidário, que vai fazendo o seu caminho de mãos dadas com o empobrecimento do País.

Dia 25 de maio à noite, quando a abstenção registar níveis ainda mais históricos do que em eleições anteriores, lá virá o desfile pelo muro mediático das lamentações que são os jornais e as televisões, condenando a falta de participação e de interesse dos eleitores.

É certo que já só faltam 15 dias para as eleições. Mas ainda há tempo para que, no dia do voto, os eleitores percebam que, afinal, os partidos não são todos iguais e sintam que vale a pena celebrar a democracia».

Nuno Saraiva, DN