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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sex | 22.03.19

Descida dos passes sociais

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«A descida dos passes sociais suscitou uma série de comentários verdadeiramente imperdíveis. O de Marques Mendes, na SIC Notícias e Jornal de Negócios, pela sua longa argumentação, é um caso notável de hipocrisia, desfaçatez e trafulhice.

 

Começando por afirmar a justeza da medida, que “vai na direcção certa – incentivar o uso do transporte público”, levanta de seguida tantos e tão graves problemas, que talvez o melhor mesmo seria inviabilizar a “mudança (é) justa”! Os três argumentos expendidos são uma maravilha.

 

A “qualidade dos transportes”. Isto é, como os transportes são de baixa qualidade, as pessoas devem continuar a pagar bilhetes e passes caros. Uma lógica notável! Como se o aumento da procura – e o problema de facto pode ser se há condições para a oferta suficiente – não fosse um elemento de incentivo e pressão para a sua melhoria, para a exigência de mais qualidade e de mais quantidade.

 

O “eleitoralismo”. Ou seja, grande parte das medidas aprovadas no OE2019, não poderá ser concretizada em 2019. Em 2019… há eleições, e duas, uma em cada semestre, logo, cabem todas no rol de medidas eleitoralistas. Além da grande confusão que se faz (e não é por lapso!), entre medidas a concretizar agora, hoje, amanhã, e o anúncio e propaganda de medidas e promessas, a assinatura de contratos, a bênção da primeira pedra e etc.

 

E o cúmulo da desfaçatez: “a injustiça com o interior do país”. Grande “injustiça” partilhada por outros ínclitos defensores do interior, como o Expresso (Vítor Matos, Expresso Curto, 18MAR19), cheios de peninha pelo povo abandonado das Beiras e Trás-os-Montes. Assim o povo do Mogadouro não vai poder tirar um passe social para a Linha do Sabor. E o de Vila Pouca de Aguiar para a Linha do Corgo. E o de Viseu para a Linha do Vouga. Não se faz! E todas aquelas aldeias do nosso mundo rural profundo, que deixam de poder pedir o passe para a Rodoviária Nacional!

 

Dirá Cristas, dirá Rui Rio, na esteira de Marques Mendes: ah gente, que grande injustiça. E só não é maior porque nós, a tempo e horas, já lhe tínhamos acabado com as linhas férreas e a ida de autocarros da RN às suas freguesias. (Bem, para alguns deles já nem isso podia acontecer, porque já lhe tínhamos liquidado também as freguesias). É verdadeiramente lamentável. Então como é que essa gente se vai deslocar agora para o Porto e Lisboa, para aceder ao Hospital ou ao Tribunal? Quando acabámos com o regime de apoio ao transporte dos doentes nessas regiões, foi com ideia de criar um passe social para doentes. E outro para as deslocações aos tribunais!

 

Contrapôs muito bem Marques Mendes aos passes sociais anunciados: “E o interior do país (…)?” “Para esses não há dinheiro nem compensação?”. Mas sabem, nós do PSD e CDS, tínhamos pronta uma lei para garantir contrapartidas a essa gente do interior onde fechámos (sempre com a participação do PS, sublinhe-se) “serviços públicos, escolas e centros de saúde” (como diz Marques Mendes) e maternidades, e tribunais, e estações dos CTT, e postos da GNR, e Zonas Agrárias, e entidades de turismo e centros da segurança social, e delegações da CGD e do Banco de Portugal, e etc. (como não diz Marques Mendes). Mas não nos deram tempo nem dinheiro para o fazer! Mas íamos fazer, que nós somos dos que temos peninha do interior.

 

Cai o pano, envergonhado com tanto descaramento.».