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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 20.09.14

'Desculpas de mau pagador'

narrativadiaria

 (imagem retirada do facebook)

«Desculpas de mau pagador» é uma expressão popular usada relativamente a alguém que não encontra razão válida para justificar e assumir os seus erros, recorrendo a esfarrapadas desculpas de modo a «cobrir o sol com peneira».

Vem isto a propósito de dois governantes terem dirigido, em menos de 24 horas, durante esta semana, um pedido de desculpas ao país. Primeiro foi a ministra da Justiça, depois o ministro da Educação. Isto até seria hilariante, se não fosse tão grave o quadro com que nos deparamos.

A ministra da Justiça veio pedir desculpas pelo estado caótico em que a Justiça se encontra após a famigerada reforma do mapa judiciário, acrescentando que iria apurar responsabilidades.

Ora, pergunto eu: as responsabilidades pelo caos no sistema informático Citius não são, em primeira instância, da ministra da Justiça, enquanto superior hierárquica máxima do ministério que tutela? Não foi Paula Teixeira da Cruz que insistiu, contra tudo e contra todos, em prosseguir uma reforma, prometendo que no dia 1 de Setembro do corrente ano os tribunais reabririam e que tudo estaria a funcionara a 100%? Não foi a titular da pasta da Justiça que andou há mais de um ano a apregoar aos ‘sete ventos’ a reforma judiciária que estava a desenvolver, afirmando que era a melhor reforma dos últimos 200 anos? E não foi a própria ministra avisada, atempadamente, do caos pantanoso em que afoitamente se meteu e nos meteu? A resposta a todas a estas questões é SIM.

A sua «reorganização judiciária» é agora desmentida pela realidade dos factos,  com a  enorme desordem e agitação em que se encontram os tribunais, com os prejuízos sociais, humanos e económicos daí decorrentes para o país.

Por isso  mesmo, este balofo pedido de desculpas não colhe. O ato de contrição feito, ao arrepio do que foi declarando ao longo destas  últimas semanas,  demonstra incompetência, deslealdade e falsidade,

O ministro da Educação, Nuno Crato, fez mea culpa e assumiu na Assembleia da República que «houve uma incongruência na harmonização da fórmula» com base na qual foram ordenados milhares de professores sem vínculo, que começaram a ser contratados. Em causa está um erro na «harmonização de escalas» na fórmula matemática usada para calcular a classificação dos professores nas listas de colocação nas escolas no concurso que ainda decorre. A fórmula de cálculo utilizada tem sido largamente criticada por sindicatos e docentes. Os professores alegam que a forma como está a ser aplicada tal fórmula gera desequilíbrios e até mesmo enviesamentos dos resultados. 

Crato perante as evidências pediu desculpa aos pais, aos professores e ao país, atribuindo o erro aos serviços do ministério e não às escolas, assegurando que vai corrigir o erro.

Ficou-lhe bem assumir o erro do seu ministério, desresponsabilizando as escolas e garantir a sua correção. Até porque errar faz parte da natureza humana e só não erra quem não executa. Isso parece-me uma evidência. O que não é assim tão evidente é que os erros se repitam, ano após ano letivo, com os constrangimentos inerentes para pais, alunos e professores e para o país. Daí que um simples pedido de desculpas de Nuno Crato não chegue para remediar os danos provocados.

Pensarão estes governantes que os triviais pedidos de desculpas pelo «transtorno» causado são suficientes para apagar com uma esponja a incompetência e prepotência nacionais e que depois lhes é dada a fácil absolvição pelos seus evidentes disparates?

Com erros desta gravidade, o pedido de desculpas apenas faria sentido, se tivesse como consequência o pedido de demissão de ambos os titulares (Educação e da Justiça). Mas, por falta de estatura moral e ética dos ministros e do próprio primeiro-ministro, a culpa mais uma vez ‘morrerá solteira’.