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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 10.04.16

E se fosse eu?

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A Plataforma de Apoio aos Refugiados desafiou os alunos a colocarem-se no papel de um refugiado e a decidirem o que colocariam nas suas mochilas se tivessem de fugir para outro país. Este era naturalmente um exercício meramente especulativo que visava confrontar as crianças com a hipótese de muitas vezes não haver tempo para preparar a mochila, em caso de catástrofe natural por exemplo.

Depois do desafio lançado pela Plataforma de Apoio aos Refugiados, a RTP fez a mesma pergunta a várias figuras públicas, entre as quais Joana Vasconcelos. A artista plástica respondeu: «levava o meu caderno, para poder fazer desenhos. O meu iPad. Levava o phones para ouvir música. Os meus lápis para fazer desenhos. Os meus óculos de sol, todas as minhas joias portuguesas. Levava as lãs e a agulha para qualquer eventualidade e o meu iPhone para poder comunicar com o mundo».

Estas palavras caíram mal na opinião pública que considerou despropositadas as prioridades de Joana Vasconcelos, especialmente se pensarmos nas condições em que vivem os refugiados. As reações nas redes sociais não se fizeram esperar. 

Eu própria quando visualizei o vídeo, confesso que também fiquei um bocado espantada. Pensei cá para mim:-  Olha que mulher fútil! Joias, telemóvel e tablet? Mas depois comecei a questionar, e se fosse eu, o que levaria na mochila?  E quanto mais pensava na pergunta, mais difícil era dar uma resposta. Primeiro pensei em bens essenciais como alimentos, roupas, documentos e outros bens com valor estimativo. Posteriormente ponderei, então e o telemóvel? Será que conseguiria deixar o telemóvel em casa, quando tivesse que procurar uma nova vida noutro país e falar com os que me são próximos? E o iPad? Certamente daria jeito para comunicar com o mundo.

E as agulhas e as malhas? Claro que isso não seriam as minhas prioridades. A realidade, as condições de vida e necessidades de Joana Vasconcelos são diferentes das minhas e das demais pessoas. Ora, se esses materiais são essenciais à atividade profissional da Joana Vasconcelos, acho normalíssimo que quisesse levar. Eu preferiria levar um livro e um caderno, mas isso sou eu que não sou artista plástica.

A verdade é que é fácil atacar, é fácil ir na onda, é fácil chamar fútil ou superficial a alguém. Mas acredito que, se em vez de criticarmos, pensarmos primeiro na nossa resposta à mesma pergunta, talvez nos surpreendamos. Depois é difícil colocar-nos na pele de um refugiado porque nós não nos confrontamos com o mesmo tipo de dificuldades.

Creio que o mais importante nisto como em tudo, é sermos capazes de estar numa posição em que respeitamos as escolhas do outro, desde que o bem-estar de alguém, não coloque em causa o nosso. Agora se gosta de levar óculos de sol, tablets, telemóveis ou agulhas, penso sinceramente que isso será um problema de somenos e que só a ela lhe dirá respeito.

Enquanto investimos tempo na crítica a estas escolhas, passa-nos ao lado milhares de outros detalhes que levam à existência de refugiados e das soluções que existem para os ajudarmos.