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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 12.02.14

Vítor Gaspar por Maria João Avillez

Numa entrevista à jornalista Maria João Avillez, publicada em livro, com posfácio do presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’Oliveira Martins, que chegou ontem às livrarias, e irá ser apresentado no dia 18 pelo socialista António Vitorino, Vítor Gaspar revela-se enquanto antigo governante que, durante os dois anos ocupou a pasta das Finanças.

Na entrevista  que se estende por quase 368 páginas, Gaspar refere-se à sua passagem pelo Governo, desde o momento em que recebeu um telefonema de António Borges, em nome do primeiro-ministro, até à sua saída, em Julho do ano passado.

Agora, e já fora do Governo, assumiu a sua função de economista, profissão que admite ter tido origem numa ida acidental para o curso de Economia. Descreve-se como observador e admite não gostar de ser observado. A sua visão longínqua do que se passava por vezes no país foi fortemente criticada pela oposição e pelos portugueses, mas o próprio confessa ser uma pessoa discreta, até no futebol (quando ia ver jogos ao antigo Estádio da Luz o seu lugar favorito era no terceiro anel).

Rejeita o título de político, muito embora tenha sido assim que ficou  na memória dos portugueses. Revela que que foi Paulo Portas quem esteve na origem da sua saída do Governo, afirmando que não havia espaço para ambos. «Ou era um ministro ou o outro», confessou, realçando os impactos negativos que o anúncio da saída de Paulo Portas teve nos mercados, lembrando que as taxas de juro a 10 anos chegaram a ultrapassar os 7%.

O ex-ministro considera  que «o motivo mais decisivo, o catalisador para a necessidade de sair, foi a impossibilidade de concluir atempadamente o sétimo exame regular». Sobre as razões desse atraso, esclarece que «era preciso um mandato político que permitisse esse encerramento». Mais à frente na entrevista, esclarece que «a posição negocial do ministro das Finanças fora internacionalmente diminuída» e «estava diminuída a sua capacidade de representar de forma eficaz o país». E, numa frase que podia servir para voltar a olhar a sua interpretação da carta de demissão que deixou, explica: «é muito difícil distinguir aquilo que se passou numa linha de tempo daquilo que recordamos depois, com a racionalização dos factos».

Vítor Gaspar diz ainda que a reforma do Estado não avançou mais cedo porque tinha custos para os interesses organizados que, segundo o próprio, estão fortemente enraizados desde o Estado corporativo construído por Salazar.

Elogia a sua sucessora à frente da pasta das Finanças, referindo que Maria Luís Albuquerque é «única». A expressão é usada depois de o ex-ministro das Finanças explicar que Albuquerque é «alguém que combina uma grande determinação e capacidade profissional com uma capacidade de comunicação convicta e de empatia». Recorda que havia entre si e a atual ministra das Finanças uma grande sintonia, confessando-se «um grande admirador» da ministra. Diz que é uma personalidade respeitada internacionalmente por nomes como Mario Draghi (presidente do Banco Central Europeu), Wolfgang Schäuble (ministro alemão das Finanças) ou Olli Rehn (comissário europeu responsável pelo euro).

Nesta entrevista, explica ainda porque pensou em demitir-se, pela primeira vez, em Outubro de 2012, que trabalhava 14 a 16 h por dia no Ministério das Finanças  e assume a autoria da famosa taxa social única (TSU), esclarecendo que foi num voo para Bruxelas, ao lado de Maria Luís Albuquerque, que se lembrou desta hipótese, que debateu, então, com a atual ministra das Finanças.

Na sua postura serena é detentor também de um sentido humor muito peculiar que diz ser «involuntário». Recorde-se que Gaspar, enquanto ministro pediu compaixão pelos maus resultados do Benfica, culpou o mau tempo pela crise e, no Parlamento, assim como nas comissões de inquérito, primou pelas suas piadas desconcertantes que ora faziam sorrir de uns, ora irritavam outros.

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