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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 01.10.15

Está tudo em aberto...

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A quatro dias das legislativas, as sondagens e as tracking polls dão vitória à coligação PAF, mas os analistas políticos dizem que está tudo em aberto.

«O PS ainda pode ganhar», garante ao Económico o presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Nuno Garoupa, tendo em conta o elevado número de indecisos. Neste momento há meio milhão de eleitores de votos que ainda não definiu a sua intenção de voto próximo domingo. Segundo este analista, o resultado eleitoral vai ser basicamente decidido pela distribuição de votos dos indecisos e pela abstenção.

António Costa Pinto, professor do Instituto de Ciências Sociais e comentador da SIC- Notícias, também acredita que neste momento é impossível dizer com segurança quem vai vencer as eleições, porque há um número considerável de eleitores que não sabe ainda em quem votar, depois, entre os indecisos há aqueles que desistem de ir às urnas, e outros, ainda, os que vão votar noutra força política, muito embora digam que não quando são inquiridos pelos entrevistadores, refere o politólogo.

Pedro Magalhães, especialista em sondagens e estudos de opinião, admite que os resultados das eleições possam ser diferentes das tendências reveladas até agora pelas sondagens e pelas tracking polls, muito embora seja pouco plausível.

Mas as sondagens também falham, veja-se o caso das últimas eleições no Reino Unido e de Rui Rio nas autárquicas de 2001. Quando tudo apontava para ser Fernando Gomes a ganhar as eleições e todas as sondagens lhe atribuírem um score de 20%, obteve mais de 40%.

A sondagem real, aquela que conta verdadeiramente, far-se-á a 4 de Outubro. E se, de facto, os indecisos são ainda tantos e se são eles que decidirão o vencedor, será interessante acompanhar como acabarão por decidir: se darão maioria parlamentar à PAF ou, se pelo contrário, tenderão a votar à esquerda; e, neste caso, darão mais peso ao PS.

Sobre esta temática gostaria de partilhar convosco este texto de Maria Emília Brederode Santos, o qual subscrevo na íntegra:

«A confiança é como o vidro: uma vez quebrado dificilmente se reconstitui. A democracia representativa assenta na confiança do eleitor no seu representante. Ora nós, cidadãos portugueses, sabemos bem que esta confiança foi quebrada por um governo que fez o contrário do que disse que faria, criou leis que aplicou retroactivamente, suspendeu direitos, retirou protecções sociais aos mais pobres, empobreceu as classes médias, criou divisões e ódios entre os portugueses – trabalhadores privados contra funcionários públicos, jovens contra a “peste grisalha”, o continente contra as regiões autónomas, o interior contra o litoral – e vice-versa. Dividiu para reinar mas não conseguiu resolver nenhum dos problemas económicos e financeiros do país, só os agravou: ainda esta semana a imprensa recordou que o deficit de 2014 foi de 7,2% do PIB! Se apesar disso cá vamos sobrevivendo é apenas à custa da carga de impostos que sofremos.

Apesar desta situação, as sondagens indicam um quase empate técnico entre a coligação do governo e o principal partido da oposição. Como é possível? Não querendo pôr em causa a fiabilidade das sondagens (embora as que assentam em chamadas para telefones fixos só possam ter uma amostra extremamente enviesada…) a única explicação que vejo está no medo. Medo das profundas transformações tecnológicas e das suas consequências para o trabalho e o emprego; medo da economia globalizada e desregulada com os consequentes movimentos populacionais e a desvalorização do trabalho; medo da situação internacional - das guerras, das tensões, de uma Europa que parece estar a desfazer-se; medo da redução de Portugal a um lugar cada vez mais periférico. Medo da insegurança, da precariedade, da pobreza. E o medo conduz ao conservadorismo masoquista: que fiquem estes que já sabemos como são …

Ora a resposta a este medo não se pode procurar na coligação PaF que já demonstrou não conseguir resolver problema nenhum e apenas os adiar à custa do aumento de impostos sobre quem trabalha e quem trabalhou.

Eu não sei se o PS conseguirá resolver a crise que atravessamos e que nos ultrapassa. Mas sei é que nas tentativas que fizer não se alegrará por ter um pretexto para cortar direitos adquiridos, desvalorizar o trabalho, contribuir para a destruição da classe média e aumentar o fosso e os conflitos sociais. Sei que o PS procurará sempre ter em conta a defesa dos mais fracos e a protecção das classes médias em que assenta a democracia.

Sei que António Costa lutará com força e determinação contra a crise e a crispação da sociedade e que para isso preferirá contar com o apoio dos portugueses mais do que com efémeros e caprichosos favores de qualquer entidade nacional ou internacional sempre disposta a ajudar-nos em seu próprio benefício…

Não duvido que exigirá uma boa arrumação das contas públicas, que recusará luxos e desperdícios – como o fez na Câmara de Lisboa - mas trabalhará com uma visão de futuro e apostará na educação, na cultura, no saber e na modernidade.

Confio em António Costa porque tem procurado preparar-se seriamente para a governação, sabendo que os problemas económicos e financeiros do país são graves mas sem descurar a defesa dos cidadãos e o investimento produtivo como condição de emprego e crescimento. Confio em António Costa porque confio que o PS é hoje o único partido em Portugal que constitui uma alternativa realista de governo».