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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Qui | 18.04.19

Estamos completamente dependentes do automóvel!


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Estamos tão dependentes do carro que uma simples greve de motoristas de matérias perigosas quase paralisou o país e instalou o caos.

 

Esta não é a primeira vez que o país assiste a uma corrida aos combustíveis provocada pela paralisação dos motoristas de pesados. Em junho de 2008 já tinha existido um cenário idêntico, quando os camionistas portugueses de transporte de mercadorias entraram em greve contra a escalada do preço dos combustíveise. A diferença desta vez esteve na rapidez com que a gasolina desapareceu das bombas.

 

Há várias razões que ajudam a explicar o impacto desta greve:


1) os camionistas em greve são os únicos habilitados a distribuir combustíveis. Em Portugal existem cerca de 50 mil motoristas com cartas de pesados, aptos a conduzir camiões com mercadorias. No entanto, o transporte de materiais perigosos, como é o caso dos combustíveis (seja para veículos terrestres, seja para aviões), só pode ser feito por uma pequena parte destes trabalhadores. Em concreto, só cerca de 800 camionistas podem transportar matérias perigosas (uma categoria que também inclui os explosivos, os químicos, material radioativo, oxigénio ou material criogénico).

 

2) Mais de 75% destes motoristas (ou cerca de 600) afetos ao Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), que convocou a greve que arrancou na segunda-feira teve uma adesão de 100%. Mas a imprevisibilidade do protesto dos motoristas de matérias perigosas advém de um fator concreto: o SNMMP (criado em 2018) é um sindicato independente, constituído propositadamente à margem da FECTRANS (Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações) que é afeto à central sindical CGTP.


3) Depois, porque as redes sociais e as notícias alarmistas da comunicação social foram o rastilho que acelerou a corrida dos consumidores às áreas de serviço a um ritmo alucinante que não se verificou em 2008.

 

4) Segue-se a ganância e a ansiedade dos consumidores que não apenas atestaram os depósitos como trouxeram bidons cheios, à boa maneira tuga, com medo que esta greve durasse vários dias.Ontem a pergunta recorrente era: «já meteste gasolina?»

 

5) E, por último, a capacidade limitada das infraestruturas de armazenamento de combustível. Até o próprio aeroporto Humberto Delgado tem uma capacidade limitada de armazenamento, depende diariamente de 180 camiões-cisterna que fazem o trajeto entre a A1 e a Segunda Circular, o que significa que qualquer evento, grande e significativo, tenha potencial para isolar internacionalmente o país. Toda esta situação poderia ser evitada com um abastecimento por pipeline através da construção de um oleoduto que ligasse o maior parque de combustíveis em Aveiras à Portela, numa extensão de cerca de 50 quilómetros. O investimento chegou a ser equacionado nos anos 90 e custaria qualquer coisa como 50 milhões de euros, mas nunca viu a luz do dia.


Resumindo, esta greve dos camionistas que agora termina, veio mostrar que o governo falhou na preparação logística da greve e dos serviços mínimos, porque não previu os seus efeitos, aliada à impreparação do país e da sociedade, bem como da sua dependência do automóvel, e a impotência dos velhos sindicatos controlados pela CGTP/PCP (que tinham assinado um acordo coletivo no qual os trabalhadores não se reviam).


O que começa a ser evidente é que o PCP já não tem o monopólio do controlo das relações laborais e que já não consegue, como no passado, impor a disciplina e obediência dos trabalhadores.


Mas a conclusão principal é mesmo esta: o país precisa mesmo de andar de automóvel, facto que nem os novos sistemas de mobilidade conseguem alterar. É que o país e as pessoas estão dependentes da gasolina e/ou gasóleo e não funcionam sem estes combustíveis.