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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 30.06.14

“Funeral Blues"

narrativadiaria

(imagem TVI)

Ontem o Jornal da Noite da TVI abriu com a trágica notícia da morte do filho de Judite de Sousa após um acidente numa piscina na madrugada de sábado.

José Alberto de Carvalho visivelmente comovido leu uma  carta dos pais de André Bessa a dar conta do infausto acontecimento. Eu sei que a morte de André Bessa não é menos chocante que das duas crianças que faleceram na sequência de um despiste de uma moto-quatro em Penela ou daquelas que foram vítimas de um incêndio da Damaia.  Todas são lamentáveis e é impossível ficar indiferente perante estas notícias. Acontece que Judite de Sousa é uma jornalista conhecida do grande  público que semanalmente nos entra pela casa dentro, e sempre foi conhecida a dedicação que ela tinha pelo seu único filho. Por isso esta morte foi tão chocante.

Na ordem natural das coisas, os filhos crescem, tornam-se adultos, constroem a sua vida e eventualmente uma  família e sobrevivem aos pais. Nesta história como aliás nas outras duas, aconteceu tudo um pouco contranatura.

O que restará a uma mãe ou a um pai depois de perder um filho?  Não consigo encontrar as palavras adequadas às circunstâncias porque não há palavras no mundo que sirvam este propósito. Por isso transcrevo o poema “Funeral Blues” escrito em 1936 por W.H.Aundem  e que a TVI ontem dedicou a André Bessa, como homenagem aos pais que perderam os filhos que «sempre quiseram e que sempre os quiseram».

 

BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.