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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Dom | 16.12.18

Greves e mais greves

 

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Da saúde à justiça, passando pelos professores, pelos guardas prisionais e pelos transportes, o país vive nesta quadra uma forte contestação, com uma onda grevista que se arrasta até ao fim do ano (há 47 pré-avisos de greve até final de 2018, segundo o Expresso) e que certamente irá continuar em 2019.

 

Não discuto a legitimidade destas greves, se bem que no que respeita à Saúde recuso-me a admitir que o direito à greve esteja à frente do direito à vida. Mas não sejamos ingénuos! É óbvio que a existência de tantas greves nesta altura do ano tem, como é evidente, agendas e propósitos políticos claros e Pedro Adão e Silva veio por o dedo na ferida com o seu artigo esta semana no Expresso:

 

«Não é nem por acaso nem politicamente irrelevante que a contestação social tenha assumido visibilidade nas últimas semanas. A explicação para este surto grevista encontra-se algures entre as expectativas criadas pelo sucesso na frente orçamental, a ambição de influenciar os programas eleitorais e a recomposição em curso na representação de interesses no mundo do trabalho. É mesmo um daqueles momentos em que os sistemas de incentivos convergem todos.

 

A explicação mais simples para o aumento de greves está na aproximação das eleições e na libertação dos partidos que formaram a ‘geringonça’. Três anos de acordos orçamentais limitaram a margem de afirmação do PCP, do BE e também do PS. Agora, os três partidos estão livres para acentuar as suas diferenças e aqueles com maior influência no movimento sindical usam-na para amplificar a sua agenda.

 

Há a este propósito um elemento de novidade significativo: alguma fadiga do protesto depois dos anos da troika (também financeira, com sindicatos exauridos) juntou-se à emergência de novas realidades sindicais, em alguns casos ancoradas à direita. Enquanto os sindicatos tradicionais diminuíam a intensidade do protesto, novos movimentos emergiam com agendas mais reivindicativas, muitas delas objetivamente inaceitáveis por qualquer governo. Neste processo, iniciou-se um crescendo de protesto que está a colocar grupos profissionais num beco sem saída, mas no qual o Executivo também pode sair a perder. Os casos dos enfermeiros, com uma Ordem particularmente ativa, e dos professores, em que os sindicatos tradicionais aparentam, também, ter de cobrir a parada de novos movimentos mais inorgânicos, são, nesta perspetiva, paradigmáticos.

 

Sobra a encruzilhada política em que o país se encontra. Com o sucesso anunciado da consolidação orçamental, abriu-se espaço para discutir o que fazer além de colocar as contas públicas em ordem e devolver rendimentos. Se foi precisamente em torno da recomposição do Estado social que os partidos à esquerda revelaram menor capacidade de entendimento, é natural que a questão se coloque cada vez mais com o aproximar de um novo ciclo político. Com eleições à vista, os grupos profissionais só podem aumentar o tom das suas reivindicações, para já, tentando influenciar os programas eleitorais que começam a ser desenhados e, mais tarde, procurando ganhos de causa junto do Governo.

 

O problema é mesmo esse. Sem algum tipo de capacidade de construir uma plataforma comum sobre como reformar serviços públicos — da saúde à educação, passando pelos transportes —, os governos estão sempre condenados a lidar com reivindicações atomizadas e a negociar apenas carreiras e salários. Este, o anterior e o próximo.».