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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Seg | 03.02.14

Herman José

A RTP transmitiu, ontem, um programa de homenagem a Herman José pelos seus 40 anos de carreira, inteiramente merecida.

Figura incontornável e pioneira do humor nacional.  Possuidor de um sentido de humor fenomenal, com uma incrível capacidade de se transfigurar em várias personagens, mas sobretudo absolutamente irreverente, livre e genial .

Antes dele o humor circunscrevia-se ao teatro de Revista, a uns sketches mais ou bem conseguidos e pouco mais, mas sem a criatividade e  a genialidade  que Herman José trouxe ao panorama humorístico português.

Num país cinzento, o Herman foi um visionário. Aqueles bonecos por ele imaginados eram verdadeiros oásis no humor nacional, quer pela inteligência do seu humor, quer pela ausência de tabus, quer pelo divertimento que suscitava aos próprios atores que os interpretavam (a avaliar pelos ataques de riso que eles próprios tinham em direto),  tornando o público cúmplice daqueles disparates. Figuras como o “Diácono Remédios”, o “Estebes”, “Laurodérmio” que tão bem caricaturava tinham implícita a crítica que ele sabia existir na cabeça de tantos pseudomoralistas. Lembro-me daqueles diálogos “trapalhões” do Nelo e da Idália, mas extremamente didáticos, verbalizado num humor socialmente demolidor e implacável, todos os preconceitos sobre vários temas sociais da atualidade.  De forma improvisada saíram momentos sublimes que jamais esqueci e  que ainda hoje me faz sorrir com o nonsense das personagens.

É delicioso, ainda hoje,  rever os programas do Herman de há tantos anos atrás com figuras históricas, como a célebre “Última Ceia”, programa censurado pela RTP, que lhe valeu a indignação de meio país.  Afinal verificamos que não existia ali nada de ofensivo, apenas um exercício de ironia e de humor.

O drama de muitos artistas é que  tendo criado uma expectativa enorme sobre as suas capacidades nos desiludem rapidamente quando não estão no seu melhor. O Herman obviamente tem dias melhores e outros menos bons. Todos temos. Tem programas melhores que outros, mas nunca desilude propriamente e já soma 40 anos de carreira.  Aquela imagem quase idealizada do humor sublime e inteligente não consegue ser ultrapassada facilmente.

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