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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Ter | 25.03.14

José Socrates passa de comentador a entrevistado

 

 

(imagem RTP)

Sócrates foi contratado pelo anterior Direção de Informação da RTP, pro bono, para fazer comentário e análise política sobre os assuntos mais pertinentes da semana num espaço de “comentário” que foi  apresentado pela estação como sendo  “A opinião de José Sócrates”, tendo sido escolhida como moderadora a jornalista Cristina Esteves.

No último domingo, os telespectadores foram surpreendidos com uma «entrevista confrontacional» em que José Rodrigues dos Santos munido dos seus «arquivos» resolveu questionar o ex-primeiro-ministro com diferentes perspetivas entre o passado (seis anos da sua governação) e o presente (atual governo). O vídeo foi colocado nas redes sociais, tornou-se viral e motivou um coro de protestos.

É editorialmente defensável que José Rodrigues dos Santos tenha optado por aquela postura, nos moldes em que o fez? Penso que não. E a principal razão é que  o modelo adotado no passado domingo defrauda as expectativas do próprio entrevistado e dos telespectadores que se sentaram em frente ao écran na esperança de ouvir José Sócrates comentar sobre assuntos da atualidade e não ser entrevistado sobre questões da sua governação. Usar um espaço em que convidam Sócrates para opinar e transformá-lo em entrevista é, no mínimo, desonesto o que até motivou um desabafo do próprio: «não vinha preparado para isto».

Neste tipo de programas, o jornalista é um suporte do comentador, para lhe colocar as questões que devem ser colocadas e para evitar que ele se afaste do tema que lhe foi lançado ou divague para outros da sua conveniência. Será interessante perceber o que acontecerá quando, salvaguardadas as respetivas diferenças, o jornalista da RTP moderar o espaço de comentário de Nuno Morais Sarmento.

Querem passar a entrevistar José Sócrates todas as semanas? Nada contra. Mas então é necessário criar outro formato, outro programa, e explicar previamente os conteúdos e o seu alinhamento. Os portugueses que mensalmente pagam uma taxa de audiovisual para sustentar a RTP e os seus funcionários têm o direito de saber ao que vão.

Nisto como em tudo na vida têm que existir princípios e valores éticos muitos claros,  que não permitam alterar as regras a meio do jogo a seu bel prazer, sob pena dos telespectadores perderem a confiança na estação televisiva, mais quando se trata de um canal de serviço público de televisão que é pago integralmente com dinheiros públicos. Muito embora isto seja válido não apenas para o comentador José Sócrates, mas para todos os outros comentadores residentes que pululam pelas várias estações de televisão.

Tem razão Daniel Oliveira quando fala de uma cilada - mas, fora o seu lado pouco ético e até desonesto, ilustrativo do poder dominante dos media, a estratégia utilizada foi inócua para o “entrevistado”. A meu ver e salvo melhor opinião, José Sócrates desembraçou-se bem da suposta “armadilha” que lhe foi preparada pelo “entrevistador”porque está mais que experimentado neste tipo de entrevistas.

O facto teve até, ao meu ver, um lado bastante positivo para a RTP, porquanto deu um interesse e uma visibilidade acrescidos ao um programa que manifestamente o não tinha, tendo muito provavelmente feito disparar as audiências. Se o objetivo foi esse, então penso que foi atingido.

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