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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 14.12.14

«Juntos Podemos»

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O descontentamento popular, a descrença nos partidos tradicionais e o descrédito resultante de vários escândalos políticos têm despoletado a formação de movimentos de cidadãos contra o poder instalado.

Espanha é o paradigma do que tem vindo a passar-se um pouco por toda a Europa, nos últimos tempos.

No mês passado, o jornal El País avançou com uma sondagem em que as intenções de voto dos espanhóis recaiam sobretudo no recém-criado «Podemos» (com 27,7%), ultrapassando os partidos tradicionais e vencendo as eleições em Espanha, caso as mesmas se tivessem realizado em Novembro passado.

Recorde-se que o «Podemos» foi constituído no início do ano pelo escritor e apresentador de televisão Pablo Iglesias. Após três meses de ser fundada, o partido elegeu, nas eleições europeias, cinco deputados, entre eles, Iglesias. Conta já com mais 200 mil filiados e ameaça interromper o bipartidarismo reinante na política espanhola. Estes dados fizeram tremer o establishment no país vizinho, mas também fez soar as campainhas na Europa.

Os especialistas apontam como principal impulso destes movimentos, além da crise financeira, a crise de valores e desconfiança nos políticos que, uma vez chegados ao poder, não cumprem as promessas. Ou seja, os partidos tradicionais estão esgotados e não dão respostas cabais aos problemas reais dos cidadãos e estes, desiludidos, procuram alternativas nos novos ativismos que apostam num discurso por vezes utópico, por vezes populista, mas sempre contra partidos, contra políticos, contra Governo – basicamente, contra sistema.

Já outrora haviam emergido outros movimentos em toda a Europa, por força do desalento dos cidadãos. É o caso da Frente Nacional, em França, liderada por Marine Le Pen, que tem uma base de eleitores em franco crescimento. Estes nacionalistas, anti União Europeia, e o Partido da Independência no Reino Unido foram as forças mais votadas nas eleições europeias em França e Reino Unido, respetivamente.

Em França coexistem, ainda, outros grupos radicais como o «Génération Identitaire», que se diz vítima da imigração porque, enquanto de origem francesa, considera-se uma minoria no próprio país; como tal, rejeita o multiculturalismo, defendendo o retorno dos imigrantes aos países de origem, bem como dos seus descendentes.

Os grupos populistas, anti-imigração e contra a União Europeia ganham assim cada vez mais simpatizantes, como os Democratas da Suécia (partido de extrema-direita com origem no movimento nazi) ou o eurocético Alternativa para a Alemanha.

Por cá, sem o surgimento de grupos radicais, a insatisfação dentro dos próprios partidos, tem levado a que dissidentes criem movimentos como o Livre (de Rui Tavares), Fórum Manifesto (de Ana Drago, ex-dirigente do Bloco de Esquerda) e Manifesto 3D (Daniel Oliveira),  e agora também o movimento «Juntos Podemos», do qual faz parte a antiga deputada do BE, Joana Amaral Dias, inspirado no «Podemos» espanhol.

O Movimento «Juntos Podemos» está reunido, em Lisboa, no ISPA e  prepara-se para transformar-se numa nova força política, que pode ter muito significado na recomposição do mapa político nacional. A fórmula organizativa vai ser discutida e aprovada este fim-de-semana. Sobre a óbvia colagem ao partido espanhol, pelo menos em termos de designação, os promotores assumem a influência, mas recusam que o movimento seja uma «sucursal» do partido espanhol.

Tal como o «Podemos» espanhol, o movimento nacional recusa a dicotomia esquerda-direita, apesar de não existir ninguém de direita entre os fundadores.

No manifesto de convocação da assembleia cidadã, os promotores assumem a criação de um «movimento democrático em que as pessoas exercem o poder. A ideia, dizem, é constituir uma força política através da qual «juntos, podemos garantir que só há democracia sem corrupção. Juntos, podemos dizer que temos o direito a escolher o modelo económico em que vivemos. Começamos aqui um processo para construir um novo sujeito político. Uma força que afirma a democracia de todos contra o poder de muito poucos».