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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 02.04.15

Manoel de Oliveira (1908 - 2015)

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Hoje é um dia triste para Portugal e para os portugueses. Partiu Manoel de Oliveira, aos 106 anos, figura incontornável do cinema português, era também o cineasta mais conhecido internacionalmente.

Portugal perdeu o seu grande Mestre, mas a Obra fica para além do Mestre. Com mais de 40 filmes no seu vasto currículo, Manoel de Oliveira era ele próprio um testemunho vivo da História do último século. O primeiro contacto com a Sétima Arte foi como ator, quando aos 19 anos fez figuração no filme «Fátima Milagrosa», de Rino Lupo. A paixão pelo cinema competia com o gosto pelo atletismo (foi campeão de salto à vara) e pelo automobilismo, modalidade em que também viria a conquistar alguns prémios

«O meu ofício é o cinema e fico orgulhoso quando sou reconhecido», costumava dizer Manoel de Oliveira, ele que descreveu em tempos a própria longevidade «como um capricho da natureza», confessava que para si, fazer cinema era fácil. Discursos é que não. A sua paixão intrínseca pelo cinema era justificada com o facto de este «ser uma invenção extraordinária, a que mais se aproxima da vida».

Passou 83 anos a realizar filmes e trabalhou até ao último dia. O seu primeiro filme, ainda no cinema mudo, foi «Douro, Faina Fluvial» (1931) que rodou com uma câmara oferecida pelo pai. A despedida do cinema deu-se com a curta-metragem «O Velho do Restelo», que estreou em Portugal a 11 de dezembro do ano passado, no dia do seu 106º aniversário.

Distinguido no ano passado com a Legião de Honra de França, em Serralves, o cineasta disse, na altura, que os seus discursos estão como os novos filmes - «mais pequenos». Porém, deixou alguns projetos por concretizar: um filme sobre as mulheres e as vindimas, adaptação de «A Ronda da Noite», de Agustina Bessa-Luís. E «A Igreja do Diabo», baseado num conto de Machado de Assis o qual pretendia rodar com os atores brasileiros Lima Duarte e Fernanda Montenegro.

O cineasta deixa ainda aquele que desejou que fosse o seu filme póstumo: «Visita ou Memória e Confissões», um filme de caráter autobiográfico, filmado em 1982 e que, por vontade explícita do próprio, só deveria ser mostrado publicamente após a sua morte.