Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 29.03.14

Mário Crespo deixa a SIC Notícias

 (video da SIC Noticias)

«Deus abençoe Portugal. Boa Noite». Foi desta forma que Mário Crespo se despediu dos telespectadores da SIC Notícias, após 13 anos, onde era habitualmente o rosto do Jornal das 9.

Mário Crespo é um jornalista de que muitos gostam, outros, pelo contrário, abominam. Encontro-me no último grupo. Acredito que possa existir quem goste do estilo – eu não. Tudo,aliás na figura do ‘jornalista’ me irrita, sobremaneira.

Relembro a entrevista conduzida por Mário Crespo à ministra Assunção Cristas. Crespo intervinha insistentemente, a despropósito, destruindo os raciocínios da entrevistada ao arrepio das mais elementares regras deontológicas, assumindo-se, simultaneamente, como protagonista e não como jornalista/moderador como lhe competia. Não foi a primeira vez que vi Mário Crespo investido destes dois papéis. Vi-o adotar semelhante postura com Helena Roseta, Pedro Silva Pereira e Arménio Carlos. Mário Crespo nunca interiorizou que no decorrer de uma entrevista a boa prática profissional exige ao jornalista uma reserva prudente quanto à emissão das suas próprias opiniões, pois o objetivo é recolher a opinião do entrevistado, que é aquilo que interessa ao telespectador, sendo apenas por isso que a sua presença se justifica. O que está em causa aqui é a coerência, a isenção e a objetividade, valores que Crespo pelos vistos desconhece ou desvaloriza, que o jornalista deve anular-se e dar o palco ao entrevistado. Deve limitar-se a enquadrar o tema e fazer as perguntas com objetividade e, se for sagaz, deve fazer perguntas para explorar eventuais contradições do entrevistado. Mas Mário Crespo enrolava-se nas suas palavras floreadas, a sua experiência profissional permitia-lhe utilizar uma técnica que confundia a acutilância das perguntas, com a manipulação dos factos. Aos entrevistados com que simpatiza, envolvia-se num servilismo bacoco, fazendo perguntas com ar cândido e patético. Aos entrevistados que não afinavam pelo seu diapasão, fazia perguntas impertinentes e capciosas. O que via naquele espaço era um mero exercício demagógico, pífio e até contraproducente por parte de quem possuía um percurso e experiência profissionais que deveriam ser suficientes para se poupar a espetáculos que roçavam a fronteira do ridículo. 

Gostos à parte, Crespo foi tudo menos um homem consensual. Os quase 40 anos de jornalismo tornaram-no um dos rostos mais conhecidos da televisão. Mas também um dos mais polémicos. Dois anos depois de ter mostrado uma T-shirt na Assembleia da República, onde afirmava «Eu ainda não fui processado por Sócrates», Mário Crespo mostrou um quadro em Excel no Jornal das 9, a fim de provar a teoria com que, durante uns tempos, se despediu dos seus espetadores da SIC: «Passou mais um dia e a RTP custou mais um milhão de euros». O caso provocou a ira na estação pública e o silêncio na SIC. Depois da reação da Comissão de Trabalhadores da televisão pública, foi a vez do jornalista Carlos Daniel usar as redes sociais para lhe chamar «mentiroso» e sair em defesa da estação pública: «A RTP não custa um milhão de euros por dia como Mário Crespo tem repetido diariamente. Mas há um dinheiro que não gasta, felizmente: o do salário desse mentiroso, por muitas cunhas que já tenha metido para voltar a viver à nossa custa, talvez à grande de novo nos States, e sem fazer nada», afirmou Carlos Daniel. O jornalista da RTP acusava mesmo Crespo de ter sido «um dos piores correspondentes da história da RTP», afirmando que «gastava rios de dinheiro em Washington e não trabalhava nada, mas nada mesmo».

A sua cruzada contra a televisão pública remonta ao ano de 1995, no extinto jornal A Capital, onde Crespo já então defendia a privatização da RTP e o encerramento de um canal. Há quem lhe elogie a coerência, mas os seus antigos colegas na RTP não lhe perdoam, o que dizem ser uma campanha contra uma casa que sempre o acolheu e para onde Crespo quis regressar. É que em janeiro 2012, o jornalista endereçou uma carta ao então presidente da RTP, assinada pelo seu próprio punho, a candidatar-se a um lugar de correspondente em Washington, nos Estados Unidos, local onde sempre sonhou terminar a carreira como jornalista.

De resto, Crespo era criticado pela forma como se relacionava com o poder político. Acusavam-no de fazer dos ministros seus comentadores residentes quando queria ser adido de embaixada ou correspondente da RTP. O alegado convite do Governo de Miguel Relvas, que na altura ocupava o cargo de ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares para aceitar o cargo de correspondente da RTP em Washington surgiu no mesmo dia em que arrancou o prazo de 60 dias, publicado em Diário da República, para um grupo de trabalho, liderado por João Duque, definir o conceito de "Serviço Público de Comunicação Social". Seria com base neste trabalho que a tutela se propunha efetuar alterações no grupo RTP e na agência Lusa. Mário Crespo contactado na altura pelo Expresso não desmentiu o convite, acrescentando: «Não me foi feita nenhuma proposta formal. Mas é um lugar que me honraria muito nesta fase da minha carreira e para o qual me sinto habilitado.

A abordagem feita por Miguel Relvas a Mário Crespo apanhou de surpresa não só a administração mas também a direção de informação da estação. Primeiro porque a nomeação de correspondentes da RTP é uma competência da Direção de Informação, com o aval da administração. Depois, porque estas nomeações têm um regulamento interno com critérios bem definidos: é dada preferência aos jornalistas da RTP, sendo os candidatos escolhidos após uma avaliação feita por um júri interno. Miguel Relvas, por seu turno, negou sempre o alegado convite feito ao jornalista da SIC Notícias.

Na despedida do Jornal das 9, na Sic Notícias, Crespo conseguiu ser igual a ele próprio. Recordou os seus tempos de jornalista na África do Sul e o projeto Jornal das Nove, na RTP2, espaço informativo lançado na época em que José Eduardo Moniz era diretor da estação pública e feito em parceria com Joaquim Letria. Afirmou que o espírito do Jornal das Nove permanecia vivo na RTP, dando como exemplo a recente polémica que envolveu José Rodrigues dos Santos e José Sócrates, mostrando que ele e José Rodrigues dos Santos partilham o mesmo ADN e são ambos ‘farinha do mesmo saco’. Resta-me desejar-lhe, boa noite e boa sorte. 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.