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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 25.01.21

No rescaldo das eleições presidenciais

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Marcelo Rebelo de Sousa, como se previa, ganhou as eleições e foi reeleito à primeira volta, com maior número votos que havia conseguido no primeiro mandato. Não chegou aos 70,35% que Mário Soares obteve em 1991, mas bateu os 60%. Não precisou sequer de fazer campanha eleitoral. 

Ana Gomes conseguiu o 2º lugar, beneficiando do voto útil daqueles que temiam Ventura em segundo lugar, mas longe do resultado das candidaturas independentes de esquerda protagonizadas no passado por Sampaio da Nóvoa e por Fernando Nobre, bem como das duas candidaturas presidenciais de Manuel Alegre. Resta-lhe a consolação de ter sido a candidata mais votada em eleições presidenciais.

André Ventura não conseguiu o objetivo de chegar aos 15%, nem retirar o segundo lugar a Ana Gomes, sobretudo pelos resultados alcançados no distrito do Porto. Porém, e não obstante toda a campanha rasca e rasteira, conseguiu convencer quase meio milhão de pessoas de muitas zonas do país, sobretudo no Alentejo e no interior do país. Festejou com discursos de incentivo ao ódio e de uma constante tentativa de difamação de todos os seus adversários. Da demissão falou pouco ou nada, apenas disse que devolve aos militantes do Chega a possibilidade de exprimirem se querem ou não a continuidade do projeto. 

O PCP apostou forte em João Ferreira, apontado como futuro secretário geral do partido. O candidato do PCP prometeu muito durante a campanha e previa-se uma votação mais expressiva, o que não se verificou. Ficou à frente do Bloco de Esquerda, mas foi batido em toda a linha por André Ventura em bastiões outrora comunistas onde o PCP ganhava sempre vantagem. João Ferreira não conseguiu descolar do espectro do partido nem sequer alcançar um score eleitoral muito maior do que aquele que conseguiu há cinco anos com Edgar Silva.

Marisa Matias foi talvez a maior desilusão da noite eleitoral. Com uma campanha política muita centrada nas televisões, Marisa perdeu quase todos os debates. Em tempo de pandemia em que a campanha de rua perdeu gás, não conseguiu impor a sua empatia (seu maior trunfo) junto do seu eleitorado. Mais, esteve sempre condicionada pelo voto do BE contra no Orçamento de Estado e pelo voto útil em Ana Gomes. Obteve um resultado miserável de 3,95%, quando em 2016 tinha alcancado 10,12 %.

Tiago Mayan Gonçalves acabou por ser a surpresa destas eleições presidenciais. Sem grandes expetativas, oriundo do um pequeno partido com apenas um deputado, ilustre desconhecido e sem qualquer experiência televisiva nem dotes oratórios, deu luta no debate político com André Ventura, a mostrar que pode roubar votos ao CDS em futuras eleições na disputa de eleitorado à direita.

Vitorino Silva, à semelhança de 2016, surgiu como um voto de protesto contra o sistema. O seu objetivo era conseguir um melhor resultado do que há cinco anos, o que não se verificou. Mesmo em Rans, de onde é natural, Marcelo ficou em primeiro lugar. Poderá, no entanto, aproveitar o lastro destas eleições e ser um trunfo eleitoral nas próximas autárquicas no concelho de Penafiel. Penso que Tino terá mais potencial como autarca do que como presidente da república.

Numas eleições presidenciais em que o país está a braços como uma pandemia e em que se previa uma abstenção histórica, os números alcançados são significativamente mais baixos do que os esperados, ainda assim expressivos.

Dito isto, Marcelo Rebelo de Sousa foi um claro vencedor destas eleições. O resultado obtido reforça a legitimidade política de Marcelo e dá-lhe poderes para, se assim o entender, até fazer um segundo mandato mais interventivo do que o primeiro.

O PS sai incólume destas eleições, não apoiou nenhum candidato e não sai nem vencedor nem vencido. Porém, o resultado das presidenciais assenta que nem uma luva a António Costa, pela fragilização das forças políticas à sua direita e sobretudo à sua esquerda. A vitória de Marcelo permite ainda que se mantenha a boa cooperação institucional que sempre existiu entre Belém e S. Bento.

A esquerda sofreu uma derrota pesada e previsível. Urge, pois, refletir o que correu menos bem e repensar o seu posicionamento no espetro político. 

Mas se a esquerda é obrigada a refletir, a direita está obrigada a reconfigurar-se. PSD e CDS cantaram vitória porque apostaram as fichas todas em Marcelo. Mas com André Ventura a conseguir 11,9 % das intenções de voto, é fácil perceber que toda a direita ficará a partir de agora muito mais condicionada pela extrema direita radical, ainda que o resultado conseguido por André Ventura (segundo lugar em muitos distritos do país) tenha que ser posto à prova em futuros atos eleitorais.

O resultado de Tiago Mayan (3 ,22% e 134.427 votos) não indicia que a IL cresça a tempo de ser parceiro de uma futura coligação com o PSD e com o desaparecimento do CDS, com o seu eleitorado conservador a fugir para o Chega e o seu eleitorado liberal fugir para a IL, mostra que se o PSD quiser ser governo terá, inevitavelmente, que fazer coligações com o Chega. André Ventura ontem no seu discurso afirmou isso mesmo. Resta saber se o PSD e Rui Rio estarão dispostos a correr esse risco.

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