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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 10.04.14

O Carisma de Manuel Forjaz

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Escrevia o Secretário de Estado, Pedro Lomba, na sua página de facebook. «Havia uma coisa que eu gostava de tentar perceber. Tentar, porque não estou absolutamente certo. Perceber porque é que Manuel Forjaz encarnava um novo tipo de carisma desconhecido do passado, um carisma diferente das formas tradicionais de influência ou liderança. Perceber que a adesão das pessoas a esse carisma diz muito sobre aquilo que hoje somos. E perceber que Manuel Forjaz, representando o tal novo tipo de carisma, conseguia chegar a mais gente do que chega hoje um político»

Não conhecia o Manuel Forjaz, a não ser através das entrevistas transmitidas através dos meios de comunicação social e dos muitos testemunhos que deixava nas redes sociais. No entanto, ao tomar conhecimento da sua morte foi como se tivesse levado um «murro no estômago», como tive oportunidade de aqui escrever. Eu sabia que o seu tempo era limitado, que este desfecho adivinhava-se próximo, mas nunca supus que estivesse tão perto. Há pessoas que têm esse efeito  ̶  de nos tocar mesmo sem as conhecermos  ̶  seja pelo seu carisma, seja pela sua empatia, seja pelo poder de comunicação que possuem.

Normalmente, as pessoas com cancro escondem-se. Forjaz, pelo contrário, aproveitou os seus dotes oratórios e decidiu expor-se. Obviamente a internet e as redes sociais tiveram um papel preponderante em dar visibilidade à sua imagem e em fazer passar a sua mensagem. Tinha uma página no Facebook, com milhares de seguidores, onde respondia a inúmeras solicitações e tentava ajudar e orientar outros doentes oncológicos. Apareceu em vários programas de televisão, nomeadamente no Alta Definição, tinha inclusive um programa semanal na TVI 24 onde abordava a doença, sem tabus. Sempre empenhado, com 1001 ideias, nunca desistiu de sonhar. Deu palestras, e até escreveu um livro sobre o cancro. O seu lema era: «posso morrer de cancro, mas o cancro nunca me matará».

Manuel Forjaz enfrentou a doença com coragem, com determinação, com uma fé inabalável em Deus e na ciência, desmistificando o cancro e os seus tratamentos. A lucidez aliada à inteligência, a beleza física, a elegância cuidada, a dignidade mantida, a postura serena face à adversidade, a consciência da finitude e a assunção da inevitabilidade da morte, não são comuns à esmagadora maioria dos doentes com cancro. As emoções positivas que transmitia e a sua capacidade de resiliência levaram as pessoas a admirá-lo. As pessoas que admiramos são aquelas que conseguem mudar a nossa perspetiva de vida, porquanto nos transmitem uma mensagem positiva, mais não seja pelo seu exemplo. Num país com um défice de exemplos morais edificantes e de gestos redentores a figura de Manuel Forjaz identificada com uma imagem de honestidade, frontalidade e generosidade - irreconhecível na maioria da classe política, caiu como “sopa no mel”.

Acresce que a sua mensagem era genuína, não tinha ímplícita nenhuma promessa, nenhum compromisso, era apenas apreendida como um padrão, como um modelo.

Que pelo menos fique o seu exemplo de coragem, de luta e de esperança: «Valoriza os momentos bons, desvaloriza os maus... Mas nunca desistas da vida».