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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 10.09.15

O derby político

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Antevia-se um debate histórico e decisivo, amplamente divulgado na comunicação social, com um recorde de audiências nunca alcançado, como se um derby futebolístico se tratasse. À semelhança dos grandes jogos de futebol ouviram-se os comentadores antes e depois do debate e inquiriram-se os portugueses a fim de tentar saber os prognósticos. Até o tempo foi o mesmo que de uma partida de futebol. Mas foi, como se diz na gíria, «muita parra e pouca uva».

Os dois candidatos foram demasiado previsíveis. Mostraram demasiado cedo ao que vinham. A estratégia de Passos foi clara: desacreditar Costa e o programa do PS, através de uma associação permanente a Sócrates, que o fez à exaustão. Nem uma palavra sobre o programa da coligação. Nem uma palavra sobre o futuro. O que não surpreende. Quem governou durante quatro anos mediante a mera adesão a um programa externo, por vontade e por falta de ideias próprias, não tem perfil para defender um programa de governo. Passos Coelho não conseguiu, por isso, ser convincente na sua narrativa. Esteve cabisbaixo, sem convicções e sem brilho.

António Costa mais acutilante, mais solto, esteve na ofensiva e lembrou, na medida certa, algumas das declarações e posições de Passos Coelho nos últimos anos da sua governação desta maioria, o facto do atual governo querer ir sempre para além da troika, os sucessivos cortes nas pensões e nos salários, o enorme aumento de impostos que os portugueses sofreram na pele e o convite à emigração, para ilustrar o falhanço de toda a política governativa de Passos.

Não gostei do formato do debate pareceu-me demasiado fechado e pouco esclarecedor: Os entrevistadores não deixaram os candidatos explanar devidamente as suas ideias e os timings impostos (90 minutos) limitaram os temas a debater. De fora ficaram temas como: a educação e o sistema de ensino, a justiça, a segurança interna, a reestruturação da dívida, a politica externa e as relações com a União Europeia, a crise dos refugiados, a politica de energia e meio ambiente, o combate à pobreza e à corrupção e a reforma do sistema politico. Falou-se mais do passado que do futuro. E esse foi o ponto mais negativo deste debate.

Em conclusão: a António Costa correu-lhe melhor o debate. A vantagem foi-lhe, aliás, atribuída pela generalidade dos comentadores. Mas, atenção! Ganhar o debate não significa que as eleições estejam no papo. Há que fazer mais, muito mais. O debate com Catarina Martins não será certamente favas contadas.