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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 16.03.14

O Referendo na Crimeia

narrativadiaria

  (imagel do google)

A região da Crimeia realiza este domingo um referendo para decidir se quer uma Crimeia integrada na Rússia ou uma Crimeia ucraniana. No referendo serão colocadas duas perguntas: «Está a favor da reunificação da Crimeia com a Rússia como parte da Federação Russa?» ; «Está a favor de que se volte a colocar em vigor a Constituição da Crimeia, de 1992, e do estatuto da Crimeia como parte da Ucrânia?».

60% dos habitantes da Crimeia são russos, 25% ucranianos, a somar ainda a uma minoria (cerca de 12%) de tártaros, pelo que poucos são os que duvidam da vitória do 'sim' à anexação da república autónoma ucraniana à Rússia.

A taxa de abstenção poderá ser um fator a ter em linha de conta, já que os líderes da comunidade tártara que representam entre 12% a 15% do total da população apelaram abertamente ao boicote, no que deverão ser seguidos por muitos dos habitantes da região que se definem como ucranianos e que representam pouco menos de um quarto do total.

A votação ocorre várias semanas após forças ligadas à Rússia tomarem o controlo da Crimeia, uma região onde a grande maioria da população é de descendência russa. Muitos moradores dizem recear o novo governo ucraniano que tomou posse após a queda do presidente Viktor Yanukovych.
Enquanto isso, o ministro interino de Defesa da Ucrânia, Igor Tenyuk, disse numa entrevista publicada neste domingo pela agência de notícias Interfax que a Crimeia «é nossa terra e nós não vamos sair daqui».
Em Sevastopol, a capital da Crimeia onde fica a base da frota russa no Mar Negro, as horas que antecederam a abertura das urnas na Crimeia foram de absoluta tranquilidade, numa campanha morna e marcada pela quase ausência dos argumentos pró-Ucrânia. Todavia, o entusiasmo com o referendo neste domingo era grande, com grandes filas nos locais de votação mesmo antes da abertura das urnas. A Crimeia significa muito para a Rússia devido aos vínculos humanos e culturais que ligam a Crimeia e a Rússia desde 1783. Essa importância foi salientada pelo ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, ao dizer que a Crimeia significa mais para a Rússia do que as Malvinas para a Grã-Bretanha. Este é um passo fundamental na estratégia desenhada pelo Kremlin para tentar defender a legalidade do processo, questionado pelos demais países. Logo após o referendo, o governo da Crimeia deverá proclamar a independência, estatuto que deverá durar poucos dias, o suficiente para concretizar as formalidades de adesão à federação russa, tanto do lado de Moscovo, como de Simferopol. Tudo tendo por base o direito à autodeterminação consagrado pelas Nações Unidas e o precedente da independência do Kosovo, a que a Rússia se opôs ferozmente e que agora não se cansa de evocar.

Para o Kremlin e para muitos russos, a anexação da Crimeia não é mais do que a reposição da sua visão da verdade histórica. O que está a valer a Putin níveis de popularidade recorde.

Os EUA e União Europeia já vieram dizer que a consulta popular é ilegal e já anunciaram sanções à Rússia e às lideranças da Crimeia, mas nada foi mencionado sobre o possível uso da força para impedir a anexação da região. Os EUA também suspenderam as transações comerciais com o país e cancelaram um acordo de cooperação militar com Moscou. A Rússia é ameaçada também de ser expulsa do G8 (grupo dos países mais industrializados do mundo) caso mantenha sua posição no conflito contra a Ucrânia.

Os interesses ocidentais são sobretudo geopolíticos, dado existir uma clara tentativa de aumentar a influência ocidental no leste da Europa e nas antigas repúblicas soviéticas. Economicamente, há a preocupação com a passagem do gás e petróleo russo para a Europa ocidental que se realiza, em parte considerável, por gasodutos/oleodutos na Ucrânia.

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