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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 08.01.26

O Regresso de Ruben Amorim

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Rúben Amorim foi despedido do Manchester United após 14 meses no comando técnico. O clube inglês oficializou a saída no início da semana, depois de os red devils terem cedido um empate frente ao Leeds, resultado que deixou a equipa na sexta posição da Premier League.

Apesar de não ter sido propriamente uma surpresa, os efeitos da saída de Rúben Amorim fizeram-se sentir quase de imediato em Portugal. Basta acompanhar os programas desportivos ou percorrer as redes sociais para perceber que a associação do treinador aos dois clubes da 2.ª Circular foi automática e quase inevitável. Enquanto permanecer livre no mercado, Amorim continuará a ser um fantasma omnipresente no futebol português, pairando sobretudo sobre Alvalade, mas também sobre a Luz.

Rui Borges foi aceite essencialmente como uma figura de continuidade — alguém que não comprometeu um projeto previamente desenhado por Amorim — mais do que como o verdadeiro autor do sucesso alcançado. A realidade é que foi o treinador que obteve o bicampeonato para o Sporting, mas nunca conquistou verdadeiramente o coração da massa adepta. Não tem sido alvo de contestação intensa, é certo, mas essa relativa tranquilidade não resulta de um vínculo emocional forte com os adeptos. Resulta, sobretudo, do peso dos troféus conquistados e da consistência demonstrada no arranque da presente temporada. Houve estabilidade, mas faltou paixão.

É inegável que se tem assistido a uma evolução positiva no seu discurso e na forma como comunica. Ainda assim, o carisma continua ausente. Rui Borges está longe de conseguir reproduzir a relação quase perfeita que Rúben Amorim construiu com os adeptos do Sporting. Essa ligação emocional ajuda a explicar por que motivo Amorim nunca foi verdadeiramente esquecido e por que razão muitos acreditam que, se regressasse agora, ainda poderia ainda relançar o sonho do tricampeonato.

A rescisão de Rúben Amorim com o Manchester United coincidiu com uma fase particularmente sensível do Sporting: o empate frente ao Gil Vicente e, poucos dias depois, a derrota diante do Vitória de Guimarães, que afastou os leões da Taça da Liga. Esta sucessão de acontecimentos funciona como um gatilho, reativando memórias, comparações e saudades de um treinador que proporcionou tantas alegrias aos sportinguistas e que mudou estruturalmente o clube.

Do outro lado da 2.ª Circular, o cenário não é muito diferente. O Benfica é treinado por José Mourinho, um técnico de currículo incontestável, mas já numa fase menos fulgurante da carreira. O terceiro lugar no campeonato está longe de satisfazer uma massa adepta que criou grandes expectativas com contratações avultadas e que vive numa exigência permanente de vitórias e títulos.

Não é de agora que o nome de Rúben Amorim surge associado ao Benfica. Essa ligação nasce sobretudo de uma narrativa emocional construída a partir do sucesso alcançado no rival Sporting. Desde então, uma parte significativa dos adeptos encarnados vive com uma sensação de perda simbólica: a de um treinador assumidamente benfiquista, formado no clube, que atingiu o topo do futebol nacional ao serviço do maior rival. Uma ferida aberta que nunca cicatrizou e que se manifesta sempre que o contexto é favorável.

Os benfiquistas mantêm a convicção de que Rúben Amorim treinará um dia o Benfica — a dúvida é apenas quando.

No fundo, Rúben Amorim deixou de ser apenas um treinador para se tornar um símbolo — uma espécie de D. Sebastião que ecoa em Alvalade e é também profundamente desejado na Luz. Enquanto assim for, a sua sombra continuará a cruzar a 2.ª Circular e a pairar sobre ambos os clubes.