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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

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Sab | 03.11.18

«O rei vai nu»

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Sergio Moro aceitou ser ministro da justiça do novo governo de Jair Bolsonaro. Recorde-se que Moro, destacou-se no Brasil por julgar os casos da operação Lava Jato, uma investigação policial que tornou públicos esquemas de corrupção na petrolífera estatal Petrobras e em outros órgãos públicos do país.

 

O próximo ministro da Justiça brasileiro, autor de sentenças de condenação de grandes empresários, ex-funcionários da Petrobras,  que foi também responsável pela condenação, em primeira instância, do antigo presidente Luís Inácio Lula da Silva num caso relacionado com um apartamento triplex de luxo na costa do estado de São Paulo, afirmou perentoriamente que jamais entraria na política e que o mundo da política e justiça não se devem misturar.

 

Pois bem, não foi isso que aconteceu. Como refere Miguel Sousa Tavares no Expresso: «O juiz Sérgio Moro, o herói da Lava Jato, o Carlos Alexandre tropical (…) não resistiu ao convite de Bolsonaro para ser ministro da Justiça do seu governo. Com isso, não fez mais do que arrancar uma máscara colada com cuspo. Primeiro, mostrou que entre a magistratura e a política, a sua verdadeira ambição era a política e a primeira serviu-lhe de trampolim para a segunda. Depois, mostrou que não foi por acaso que, poucos dias antes do impeachment de Dilma, revelou uma escuta telefónica de uma conversa entre ela e Lula, sem qualquer relevância processual e em clara violação da lei, com o intuito claro de influenciar a votação do Congresso contra Dilma — assim como depois, a poucos dias da primeira volta das presidenciais, em nova e descarada violação do segredo de justiça, revelou parte da delação premiada do ex-ministro de Lula, Antonio Palocci, com efeito determinante na votação do candidato do PT. Que a sua mulher tenha vindo depois apelar abertamente ao voto em Bolsonaro, já pouco podia espantar: este é o juiz que, sem nenhuma prova directa e baseado apenas em delações premiadas (isto é, testemunhos comprados), sozinho, investigou, acusou, despachou para julgamento, julgou, condenou e meteu na prisão o homem a quem todas as sondagens davam larga vantagem para voltar a ser Presidente do Brasil. Até pode ser que Lula seja culpado de tudo o que o acusam, o que ainda está por demonstrar à luz das normas de um Estado de direito, tal como eu o entendo. Mas o mínimo que se exigia a Sérgio Moro é que tivesse alguma noção de decoro e contenção nas suas ambições.».

 

Como afirmou Dilma, «o rei vai nu».