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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 22.02.21

Padrão dos Descobrimentos

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Ascenso Simões, deputado do PS, num artigo de opinião no Público, sugere que tal como os florões na Praça do Império, também o Padrão dos Descobrimentos poderia ser destruído.

“Os florões são, como bem demonstra Francisco Bethencourt em História da Expansão Portuguesa, uma invenção tardia semelhante ao mamarracho do Padrão dos Descobrimentos, são a eleição da história privativa que o Estado Novo fabricou, não têm qualquer sentido no tempo de hoje por não serem elemento arquitetónico relevante, por não caberem na construção de uma cidade que se quer inovadora e aberta a todas as sociedades e origens. Mesmo o Padrão, num país respeitável, devia ter sido destruído”, escreveu Ascenso Simões num texto onde defende que o “Salazarismo não morreu”.

O texto que esteve na origem da polémica surgiu com referências ao 25 de abril onde Ascenso Simões até admitia que “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos”. Posteriormente, ao Observador esclareceu que pretendia dizer “cortes verdadeiros do ponto de vista da política, da transformação da sociedade”.

Quanto ao Padrão dos Descobrimentos, segundo Ascenso Simões, o conceito aplicado deveria ser o mesmo que se fizera com as estátuas, ou quando se mudou o nome da Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril, deste modo, também se poderia retirar ou destruir o Padrão dos Descobrimentos.

As críticas não tardaram. João Soares, ex-ministro, ex-deputado e ex-presidente da Câmara de Lisboa também se pronunciou no Facebook, sem, contudo, se referir concretamente ao deputado e camarada de partido: “Ver agora por aí escrito que os socialistas querem demolir o Padrão dos Descobrimentos, sendo eu indefetível socialista PS, entristece-me. Dá a medida da perfídia e da estupidez que por aí anda”.

Também o Presidente do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos comentou a surpreendente sugestão de Ascenso Simões: “os últimos dias têm sido pródigos em insultos da esquerda e da extrema esquerda à nossa História. Nada de novo vindo de quem sempre quis rescrevê-la. Mas há insultos que para além de disparatados são graves: ver um deputado do PS, partido que suporta o Governo, a defender a demolição do Padrão dos Descobrimentos é o cúmulo da falta de noção. Isto só daria para “Os Apanhados”!”, afirmou o presidente democrata-cristão.

Portugal tem um passado glorioso de que se deve orgulhar. A história das descobertas está marcada para sempre na cultura de Portugal. Para imortalizar a memória dos tempos que marcaram a história da expansão marítima portuguesa e da presença lusa no mundo inteiro, foi construído um monumento que exalta as descobertas e conquistas: o Padrão dos Descobrimentos concebido para a Exposição do Mundo Português realizada em 1940. O mote era “o sentido de partida contendo a gesta portuguesa rasgando o mar”. Nessa altura foi edificada uma construção escultórica efémera, moldada em gesso e estopa, com armação de madeira e ferro e uma leve estrutura em ferro e cimento. Os autores foram o arquiteto Cottinelli Telmo e o escultor Leopoldo de Almeida.

20 anos depois, em 1960, para celebrar os 500 anos da morte do Infante D. Henrique, o grande impulsionador da epopeia dos descobrimentos, o Padrão foi reconstruído duma forma definitiva – em betão, pedra e calcário.

Depois disso, já nos anos 80, os seus interiores são remodelados para se inaugurar enquanto Centro Cultural, com salas de exposições, auditório e um miradouro.

Este monumento nacional relativamente recente acabaria por se tornar num símbolo da cidade de Lisboa e num dos pontos de maior interesse turístico.

Na verdade, quem passe ou visite o Padrão dos Descobrimentos e dê de caras com aquela caravela onde estão esculpidos alguns dos maiores navegadores e personalidades importantes da época, como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e o poeta Luís de Camões e em cujo topo do monumento se destaca a imagem do grande impulsionador das descobertas, o Infante D. Henrique, não consegue estabelecer uma associação ao Estado Novo, sendo de imediato transportado para a Era dos Descobrimentos Portugueses.

Não passa pela cabeça de ninguém, nem mesmo de mentes mais rebuscadas, a não ser do deputado Ascenso Simões, mandar destruir tão grandiosa obra. Haja bom senso!