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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 16.02.14

Philomena

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Philomena tem como pano de fundo uma Irlanda profundamente conservadora e católica. A história, verídica, narra a vida de uma jovem ingénua (Judi Dench,) que na década de 50 engravida e por imposição familiar é internada no convento de Roscrea.

Depois de dar à luz um rapaz, as religiosas do convento decidem dar o seu filho para adoção. Contudo, Philomena nunca desistiu de encontrar a criança. É com a ajuda do jornalista “ex-BBC” Martin Sixsmith (Steve Coogan) consegue esse desígnio.  

Baseado no livro de Martin Sixsmith “The Lost Child of Philomena Lee”, o filme é realizado e trazido para o grande ecrã por Stephen Frears.  

Com uma dupla de protagonistas improvável, mas com uma enorme química entre si, Philomena consegue agarrar o espetador do primeiro ao último minuto.  Aliás, sublinhe-se que a performance de Judi Dench  é soberba. A sua personagem oscila entre a dor profunda de uma mãe que “perde” um filho e a esperança e a fé da católica fervorosa que a faz seguir em frente. Steven Coogan consegue igualmente um desempenho notável, surpreendendo até pela capacidade que demonstra no papel de jornalista.

Frears apresenta um drama, salpicado com momentos de humor, caracteristicamente britânico, que atravessam e fortalecem a estrutura das personagens e da história.

Mais do que uma história comovente, “Philomena” torna-se belo exemplo de força e tenacidade. Uma história simples, bem contada por um jornalista que não se resigna aos factos que lhe são apresentados e uma mãe que nunca desistiu do seu filho. Uma combinação que os levou numa viagem em busca da verdade. O filme lança uma crítica continuada à igreja católica. Mas o drama biográfico é mais do que uma crítica, é uma homenagem a Philomena.

Ao ver este filme não pude deixar de pensar no “caso Rui Pedro”. Rui Pedro desapareceu, em Lousada, em 1998. Tinha 11 anos. Durante anos, a mãe, por coincidência com mesmo nome, Filomena Teixeira, lutou para que o caso não caísse no esquecimento. Em 2011 – 13 anos após o desaparecimento -, Afonso Dias, um amigo da família e a última pessoa a estar com ele, foi acusado do crime de rapto. No ano seguinte foi absolvido no julgamento em primeira instância. Em 2013 o Tribunal da Relação do Porto condenou-o. O recurso ainda está pendente no Supremo Tribunal de Justiça. Enquanto isso, a vida de Filomena Teixeira ficou destruída. O seu rosto não mente. A 28 de Janeiro, ele faria 27 anos. Paulo Pires e Ana Padrão fizerem um vídeo, para que o caso não caia no esquecimento. E para que Rui Pedro – se estiver vivo – possa visualizá-lo e voltar para casa. Deus queira!