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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sab | 09.05.15

Por que falham as sondagens?

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As sondagens no Reino Unido falharam redondamente. Apontavam para um empate técnico entre conservadores e trabalhistas e um impasse na impossibilidade de se conseguir formar um governo maioritário que garantisse estabilidade governativa, mas veio a verificar-se, contra todas as expectativas uma clara vitória do partido conservador de David Cameron. Este facto veio colocar, mais uma vez, na ordem do dia a fiabilidade das sondagens de opinião.

Uma sondagem ou estudo de opinião, em termos muito genéricos, visa medir opiniões, atitudes ou comportamentos  através da aplicação de inquéritos ou de questionários,  efetuados a grupo de pessoas que se pretende representativo da população que queremos estudar,  com o objetivo de tirar conclusões e de generalizar este tipo de comportamentos a toda a população.

É claro que sondagens nunca substituem o ato em si. Se em causa estiver uma sondagem para determinada eleição, a «prova dos nove» far-se-á nesse dia. De qualquer modo, os resultados da sondagem, se forem feitos com rigor científico, deverão dar uma indicação mais ou menos precisa da intenção de voto da população alvo.

Tecnicamente as sondagens são organizadas a partir de uma amostra da população e para o seu cálculo há teorias estatísticas que indicam com alguma precisão o número mínimo de entrevistas válidas para se obter alguma precisão na sondagem.

Uma sondagem tem sempre três características fundamentais: a dimensão da amostra, o grau de confiança e a margem de erro.

No caso de Portugal uma dimensão da amostra razoável é formada por cerca de 800 a 2000 entrevistas. O grau de confiança normal é de 95%. Acontece que fazer sondagens é um trabalho muito dispendioso e quanto maior for o universo mais cara fica, pois têm que ser entrevistados muitos mais cidadãos representativos da amostra.

A margem de erro normalmente rondará os 2% e 5%. Também, como se compreende que a redução da margem de erro encarece muito o estudo de opinião. Ou seja, quanto maior a precisão mais onerosa ficará a sondagem.

Depois não menos importante é a escolha dos entrevistados. Há vários processos, que não interessa aqui pormenorizar, uns são mais caros do que os outros. A forma geralmente usada é entrevista telefónica. O problema é que cada vez há mais famílias sem telefone fixo e assim todas estas pessoas saem automaticamente fora amostra, pois as entrevistas só poderão ser consideradas e validadas entrevistas a pessoas que residam em casas com telefones fixos.

Também existe a possibilidade de recorrer ao processo de eleição fictícia, com voto secreto numa urna, realizado em plena rua ou de porta a porta. Neste caso o eleitor é convidado a votar da mesma forma que faria no dia da eleição. Acontece que este processo é muito demorado e portanto mais caro que o contacto telefónico, razão porque não é muitas vezes o escolhido.

Uma vez contactado o entrevistado, há outro problema que se coloca e é necessário ultrapassar, prende-se com o facto de este responder: “Não sei” ou então “Não responde”. Aqui reside em parte o falhanço das sondagens. O que fazer com os indecisos? No caso das eleições, normalmente são repartidos proporcionalmente pelos partidos conforme as votações das sondagens. Assim, quem teve mais votos recebe mais indecisos o que faz sentido para o senso comum mas pode perfeitamente não corresponder à realidade.

Depois há fatores que são muito difíceis de medir. O primeiro deles é a abstenção, questão muito importante na distribuição do resultado global. O segundo é que as sondagens não conseguem controlar mudanças de voto de última hora. É perfeitamente natural que uma pessoa possa mudar à última hora a sua intenção de voto. Alás, o simples efeito de publicar uma sondagem tem consequências diretas sobre os eleitores e pode alterar o processo de tomada de decisão de voto de uma forma imprevisível. O terceiro fator prende-se com o sistema partidário e os seus protagonistas. O problema está no modelo, que é baseado em comportamentos passados. Quando os comportamentos eleitorais mudam radicalmente, esses modelos já não são válidos e os resultados são extrapolados para o modelo atual, logo saem enviesados.

Isto significa que o mecanismo das sondagens é ainda muito imperfeito Mas isso não deve retirar valor aos estudos de opinião. As sondagens de opinião fazem parte integrante e indissociável dos sistemas democráticos avançados. Por isso, não podem ser ignoradas nem desvalorizadas. Os cidadãos, os eleitores e os visados saberão valorizá-las na sua justa medida e elas cumprirão, numa sociedade democrática, a sua função de diagnóstico e de intencionalidade da opinião analisada, eventualmente falível, mas certamente indispensável.