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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Ter | 02.07.19

Prédio Coutinho

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Este caso remonta a 2000, quando o então presidente da autarquia, ex-morador no Prédio Coutinho, em Viana do Castelo, e o grande impulsionador da sua demolição, obtém do Governo a garantia dos fundos necessários para o efeito, por o prédio ser alto e grande demais e estar desenquadrado com a restante estética da zona.

 

Quando foi construído, em 1973, a construção respeitou a volumetria estabelecida pelo concurso público mas nunca foi consensual.  Está para ser demolido desde o início deste século.

 

O edifício de 13 andares já chegou a ser habitado por 300 pessoas e está situado em pleno centro histórico da cidade, tendo a demolição sido prevista, ao abrigo do programa Polis, para ali ser construído o novo mercado municipal.

 

Desde 2005 que a expropriação do edifício estava suspensa pelo tribunal, devido às sucessivas ações interpostas pelos moradores a exigir a nulidade do despacho que declarou a urgência daquela expropriação.

 

Porém, no dia 30 de maio passado, o presidente da Câmara de Viana do Castelo informou que os últimos 12 moradores no prédio Coutinho tinham de abandonar o edifício até 24 de junho, mas,  alguns proprietários resistem, estoicamente, à saída voluntária do imóvel. Das 105 frações, restam seis ocupadas. Ao longo da última semana, a Viana Polis, tomou várias medidas de pressão para demover os moradores de continuarem no prédio, sendo que estes já adiantaram que não vão entregar as chaves, por considerarem que o valor que lhes vai ser pago pelas casas é inferior ao valor real das mesmas.

 

Água, luz e gás foram cortados, embora já restabelecidos, e na sexta-feira foram executados trabalhos de demolição de paredes nos apartamentos contíguos aos ocupados. O presidente da Câmara de Viana do Castelo visitou os resistentes na sexta-feira à tarde. Foi recebido por alguns. Mas a tentativa de os convencer a sair foi em vão.

 

Em edital, datado do dia 31 de maio a Viana Polis informou que, caso os moradores «não desocupem as respetivas frações e entreguem as chaves a desocupação será executada com recurso, se necessário, às autoridades competentes».

 

O edifício é um mamarracho? Sim, é, mas os moradores têm culpa disso? É legítimo, ético e decente expropriar pessoas das suas casas, 40 anos depois,  por causa da estética do prédio onde vivem? Pode ser que seja legal. Ético e decente é que certamente não é.

 

É chocante vermos pessoas, a maioria delas idosas, serem expropriadas das suas casas devido à estética do prédio onde vivem e retirar-lhes a dignidade no final de vida. E não deixa de ser inquietante termos uma entidade pública - Viana Polis - capaz de engendrar um esquema verdadeiramente maquiavélico com a finalidade de atingir tal objetivo.

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