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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Seg | 12.01.26

Quem irá disputar a segunda volta?

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Entramos na última semana da campanha presidencial e a pergunta que domina o espaço público é inevitável: quem irá disputar a segunda volta? A resposta parece simples, mas as sondagens estão longe de oferecer a clareza que muitos pretendem encontrar.

As sondagens diárias da Pitagórica (tracking polls) para a CNN Portugal, TVI, Jornal de Notícias e TSF colocam António José Seguro e João Cotrim Figueiredo na frente, seguidos de perto por André Ventura, Henrique Gouveia e Melo e Marques Mendes. Os cinco candidatos encontram-se empados tecnicamente, o que significa, na prática, que ninguém sabe dizer, com segurança, quem passa à segunda volta. Ainda assim, a leitura dominante tende a transformar variações mínimas em tendências consolidadas — um erro recorrente.

Convém lembrar que as tracking polls que aparecem na TVI/CNN, não são sondagens feitas diariamente. Há uma diferença estatística fundamental entre agregar durante três dias 202 entrevistas  ou realizar 606 entrevistas novas todos os dias. As tracking polls recolhem pequenas amostras todos os dias e misturam-nas com dados dos dias anteriores. Isso significa que dois terços dos dados são reaproveitados, não novos. Num contexto de elevada fragmentação, este método pode ser mais enganador do que esclarecedor.

Há ainda problemas estruturais bem conhecidos que estas sondagens tendem a ocultar: amostras que sub-representam populações jovens, trabalhadores por turnos ou eleitores mais voláteis ou sem telefone fixo; eleitores indecisos que decidem tardiamente; níveis de mobilização que só se revelam no dia da eleição.

Muitas das flutuações diárias não passam de ruído estatístico, mas acabam por alimentar narrativas e comentários políticos e mediáticos.

Nos Estados Unidos, em 2016 e 2020, as tracking polls falharam em toda a linha ao prever a vitória de Trump e posteriormente subestimaram o apoio a Biden em alguns estados, levando-nos a refletir sobre a fragilidade das sondagens enquanto instrumentos de previsão.  Em Portugal, em 2022, assistimos a um fenómeno semelhante quando as sondagens diárias sugeriam um “empate técnico” entre Rui Rio e António Costa — resultado desmentido nas urnas por uma maioria absoluta do PS.

As tracking polls captam, sobretudo, o ritmo de uma campanha particularmente dinâmica que tem mantido os portugueses interessados, até pela imprevisibilidade do resultado. Porém, numa corrida em que há 5 candidatos muito próximos, é provável que só no dia 18 de janeiro se descubra quem realmente seguirá para a segunda volta.