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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 31.10.19

Salvar vidas no Mediterrâneo

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O Parlamento Europeu chumbou, por apenas dois votos, uma proposta de resolução de criação de mecanismos de proteção de vidas no Mediterrâneo. Entre estes votos contam-se os de dois eurodeputados: Nuno Melo, eleito pelo CDS-PP, e Álvaro Amaro, do PSD, os quais seguiram a orientação da bancada do Partido Popular Europeu e votaram contra. Maria da Graça Carvalho também chegou a ser apontada como uma das eurodeputadas que tinham votado desfavoravelmente, mas, como a própria explicou posteriormente, tinha-se equivocado, e corrigido ainda durante a sessão o erro técnico.

 

Contas feitas, a proposta teve 288 votos a favor, entre os quais quatro eurodeputados eleitos pelo PSD, Paulo Rangel, Maria da Graça Carvalho, Lídia Pereira e Cláudia Monteiro de Aguiar. Houve 36 abstenções, como a de José Manuel Fernandes (PSD).

 

Nuno Melo justificou o seu sentido de voto com o facto de, no mesmo dia da votação, a 24 de outubro, o Parlamento Europeu ter igualmente chumbado uma proposta do grupo do Partido Popular Europeu (PPE), onde se inserem o PSD e o CDS-PP, na qual se fazia a distinção entre migrantes económicos e refugiados. O eurodeputado centrista remeteu o resto da explicação para as declarações que publicou na sua página de Facebook.

 

Na sua declaração de voto, o eurodeputado Álvaro Amaro, do PSD, adiantou que a «resolução não teve em conta» a posição do seu grupo político (PPE). «Entendi, assim, seguir a linha de voto indicada pelo PPE e votar contra. Aguardo agora que os diversos grupos políticos voltem à negociação, para redigir uma nova resolução que possa expressar a pluralidade de opiniões existente neste Parlamento», acrescentou.

 

José Manuel Fernandes, também através da declaração de voto, fez saber que se absteve por considerar que a proposta falhava «na promoção do equilíbrio necessário para tornar as fronteiras da União num lugar mais seguro e humano», favorecendo a criação de negócios privados à conta do drama dos migrantes. Além disso, frisou, «só uma distinção clara entre migrantes económicos e refugiados permite assegurar o respeito pelo princípio da legalidade no âmbito da proteção humanitária».

 

Esta votação é reveladora do que a questão migratória é, na verdade, uma questão fraturante, que divide os eurodeputados do PSD. Cláudia Monteiro de Aguiar justificou a sua votação com o facto de fazer «todo o sentido não ir de acordo com o grupo, e votar favoravelmente esta resolução». Acresce que a questão foi discutida na delegação social-democrata, tendo a indicação sido «para se votar favoravelmente», ainda que cada eurodeputado tivesse liberdade de escolha. Cláudia Aguiar diz não concordar com a «criminalização de quem tenta ajudar pessoas, simplesmente por trazê-las para terra», fazendo uma referência ao caso do português Miguel Duarte, acusado de auxílio à imigração ilegal em Itália por causa das operações no Mediterrâneo.

 

Vale a pena ler este texto de Marisa Matias sobre este tema.