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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 13.02.14

Sobre a expulsão de António Capucho

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António Capucho foi uma figura incontornável do PSD e da política portuguesa. Há 40 anos, juntamente com Francisco  Sá Carneiro  e outros militantes ajudou a fundar o  então PPD. Desempenhou inúmeros cargos políticos -  foi Secretário-Geral Adjunto, Secretário-Geral, Vice-Presidente, Deputado, Presidente do Grupo Parlamentar, Secretário de Estado, Ministro, Coordenador do Grupo Europeu do PSD, Vice-Presidente do Parlamento Europeu, Presidente de Câmara e Conselheiro de Estado.

Foi agora ratificada a sua expulsão do PSD, por deliberação do Conselho de Jurisdição Nacional, ao abrigo dos estatutos e regulamentos do partido. Esta expulsão resultou da sua candidatura independente à Assembleia Municipal de Sintra, adversária do PSD, nas últimas eleições autárquicas de Setembro/2013.

A sanção imposta está prevista nos estatutos do partido e António Capucho conhecia-a bem,  portanto quanto a isso nada a obstar, até  porque todos os militantes, por mais ilustres que sejam, são iguais nos direitos e nos deveres perante o partido.

Num partido político é natural e até salutar  discordar. É comum estar em desacordo com o rumo que está a ser seguido e até em determinadas situações divergir  do líder do partido. Ser de um partido político não significa  que se tenha que concordar literalmente com tudo. Todavia,  em qualquer organização há direitos e deveres. Ninguém obriga ninguém a ter filiação partidária. Mas pede-se a quem é partidário de determinada força política um mínimo de coerência. Não se gosta, não se concorda com o caminho que está a ser trilhado pelo partido numa dada fase, desvincula-se. Não se pode é ser militante de um partido e apoiar uma lista diferente daquela que o partido decide apoiar,  nem que se tenha a maior justificação o mundo. Da mesma forma  que não posso  celebrar contrato com uma instituição e  trabalhar para outra, porque isso é desleal. Se o fizer sei que incorro numa sanção disciplinar.

António Capucho deveria ter suspendido a sua militância, antes de integrar uma outra candidatura. Saber romper a tempo, correr os riscos da  renúncia, colocar as posições políticas e os interesses do país, acima das motivações pessoais é o que, na minha opinião, enobrece a política. E se António Capucho o tivesse feito evitava expor-se a todo este enxovalho.

Posto isto, penso que se o partido tomou esta posição relativamente a  António Capucho, deverá tomá-la também, com todos os militantes que nas eleições autárquicas passadas estiveram nas mesmas circunstâncias.