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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Sex | 24.07.20

Sobre o fim dos debates quinzenais

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O parlamento aprovou, ontem, a alteração aos debates do primeiro-ministro no Parlamento que serão substituídos por debates mensais em formato alternado: num mês, com o chefe do Governo sobre política geral e, no seguinte, sobre política setorial com o ministro da pasta. Ambos os debates passam a ter duas rondas (atualmente o debate quinzenal tem apenas uma).

 

A proposta foi acertada entre o Bloco Central e gerou polémica, tanto na bancada socialista como na social-democrata. No PS, votaram contra 21 deputados e abstiveram-se outros cinco parlamentares, incluindo o próprio coordenador do grupo de trabalho de revisão do regimento, Pedro Delgado Alves. No PSD votaram contra cinco deputados e outros anunciaram que apresentarão declarações de voto. Os restantes partidos e duas deputadas não inscritas votaram contra.

 

António Costa, já sabíamos, não achava nada interessante a obrigatoriedade de se deslocar quinzenalmente à Assembleia da República para debater com os deputados. Estranho mesmo é que a iniciativa tivesse partido do líder da oposição com as seguintes justificações: «0 primeiro-ministro não pode passar a vida em debates quinzenais. Tem é de trabalhar», pelo que se conclui que Rui Rio não considera trabalho político como trabalho, e tem que existir «um escrutínio mais profundo da ação do Governo, com mais rigor, seriedade e credibilidade, acabando com o superficialismo que, há muito, vinha dominando os debates quinzenais, tantas vezes reduzidos a soundbytes e com a especial preocupação de marcar os noticiários do dia».

 

Claro que as discussões parlamentares nem sempre se pautam pela elevação, pela relevância e utilidade dos temas que o debate politico exige. Porém, a razão dos debates políticos com o primeiro ministro terem sido muitas vezes inconsistentes, pouco edificantes e excessivamente conflituosos, com recurso a uma linguagem inapropriada a um Parlamento não deve ser atribuída ao modelo de debates vigente ou à sua frequência, mas aos deputados parlamentares e aos respetivos partidos que os escolheram para aquela função.

 

Por outro lado, percebe-se o desconforto de Rui Rio em debater com o primeiro ministro. Rui Rio não é um grande tribuno. E os debates quinzenais dão palco privilegiado a deputados como André Ventura, Cotrim de Figueiredo ou André Silva e aos deputados do BE, onde tem oportunidade de marcar pontos.

 

Alguns deputados, especialmente do Chega e da Iniciativa Liberal, constituem uma ameaça para o PSD, já que têm vindo a preencher um espaço à Direita, anteriormente ocupado pelo CDS e pelo Partido Social Democrata. Com o fim dos debates quinzenais estas personagens terão menor tempo de antena e menor protagonismo, o que provavelmente será um alívio para o líder da oposição. 

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