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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qua | 21.04.21

Superliga Europeia

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Foi anunciada há 3 dias a criação da Superliga europeia de futebol. A intenção será criar uma competição de elite, rival da Liga dos Campeões, com 12 dos principais clubes de Inglaterra, Espanha e Itália que prevê tetos salariais para os jogadores, limites de gastos dos clubes e distribuição de lucros, num modelo semelhante ao das grandes ligas profissionais norte-americanas. Os 15 clubes participantes repartiriam entre si 32,5% dos proveitos comerciais, provenientes maioritariamente dos direitos televisivos e dos patrocínios, no valor total de quatro mil milhões de euros (o dobro do encaixe que atualmente obtêm da UEFA). Os outros cinco emblemas convidados teriam direito a verbas avultadas, mas ainda assim abaixo do valor da dos clubes fundadores.

Antes da oficialização da Superliga e perante os rumores que davam conta do anúncio da sua criação, a UEFA e a FIFA reagiram, ameaçando retirar aos jogadores dos clubes que participem nessa competição a possibilidade de representarem as suas seleções e prometeu fazer tudo que estivesse ao seu alcance para travar o projeto de alguns clubes numa altura em que o futebol, mais do que nunca, necessita de estar unido e solidário.

O anúncio da Superliga Europeia gerou reações quase imediatas de diversas entidades ligadas ao futebol. A Federação alemã reagiu prontamente, defendendo que os emblemas germânicos devem ficar à margem desta nova competição. Destaque ainda para as declarações de Emmanuel Macron, presidente francês, que se congratulou pela "recusa dos clubes franceses em participar num projeto ameaçador da solidariedade e do mérito desportivo" e "protegerá a integridade das competições das federações, a nível interno e europeu".

Em Inglaterra, país onde nasceu o futebol, foi onde as críticas mais subiram de tom. Boris Johnson declarou que iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir a criação da Superliga europeia de futebol. Também adeptos, jogadores e grandes figuras do futebol insurgiram-se contra a criação de uma nova competição fechada. Os adeptos do futebol saíram à rua e os agestes desportivos falaram, alto e a bom som,  sobre a modalidade que amam e que não querem ver adulterada.

O futebol inglês tem uma tradição, de que se orgulha, baseada na solidariedade, no mérito e no fair-play, valores ausentes desta Superliga, interessada apenas em princípios economicistas. O futebol sem sonho, sem paixão, sem emoção não terá futuro. Foi graças a este espírito que pequenos clubes, como o Leicester em 2016, por mérito próprio, ganhou a Premier League. Esta é a verdadeira essência do futebol.

Ontem, ao fim da tarde, foi anunciado que Manchester City e Chelsea manifestavam  a vontade de quebrar o acordo. Percebe-se. Estes dois clubes estão ainda a disputar a Liga dos Campeões e poderiam vir a ser penalizados por pertencerem à Superliga Europeia.

Mais tarde United, Liverpool, Arsenal, Tottenham e Chelsea também quebraram o acordo e já hoje ficamos a saber que Atlético de Madrid e Inter também sairam, o que agora deixa Real Madrid, Barcelona, Juventus e Milan como os únicos clubes que continuam no projeto. A retirada desres clubes fará certamente ruir o projeto da Superliga Europeia e ainda bem.

A ideia de construir uma Superliga de elite, fechada e direcionada exclusivamente para o lucro, contribuiria para a transformação do futebol em monopólios, valores contrários à meritocracia, à defesa da dignidade social e da igualdade de oportunidades.

Contudo, esta ideia não é nova e não começou agora. A UEFA, a FIFA e as Ligas nacionais já incorporam muitos destes valores, e deverão retirar daqui as devidas ilações.

Seria este um excelente momento para os organismos europeus, os governos e as instituições desportivas fazerem o futebol regressar à sua essência: com mais adeptos, com mais formação, com mais fair-play e mais regulação.

Ontem, na RTP, Poiares Maduro admitia que a Superliga europeia vem colocar em causa o “monopólio de organização das competições, que está nas mãos da FIFA e da UEFA”, e os “princípios de modelo desportivo baseados na lógica de que as competições não são fechadas, e do acesso baseado no mérito”.

No entanto, o professor universitário entende que o atual modelo da Liga dos Campeões já está a colocar em causa alguns desses princípios, defendendo a necessidade de “reformar e intervir” criando legislação para um setor sem supervisão.

Na opinião de Miguel Poiares Madura era importante legislar, a fim de regular uma atividade que representa 3,7% do PIB europeu e seria uma boa oportunidade para Portugal aproveitar o momento em que assume a Presidência da União Europeia para o por em prática.