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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Dom | 06.07.14

Vitor Bento é o novo presidente executivo do BES

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Cartoon de Luís Afonso Jornal de Negócios - 04.07.14

Nos últimos tempos o Banco Espirito Santo (BES) tem andado nas bocas do mundo e não pelas melhores razões. Uma guerra entre famílias colocou a descoberto atividades ilegais, desde a fraude fiscal à falsificação de contabilidade, a utilização do dinheiro dos depositantes em benefício dos próprios e a promiscuidade entre os banqueiros e o poder político. Não é de agora que há desconfianças relativamente ao BES. Há pelo menos onze factos conhecidos na Comunicação Social, em que o BES esteve envolvido e que deveriam fazer soar as campainhas do Banco de Portugal (BdP):

1)O caso Portucale, que implicou o abate de sobreiros numa zona protegida, após a aprovação de empreendimentos imobiliários, em vésperas das legislativas de 2005;

2) O caso dos submarinos, onde se suspeitou de financiamento partidário por parte do consórcio vencedor;

3) O caso Mensalão, mais financiamento partidário, desta vez do PT de Lula da Silva (as notícias do caso levaram a um corte de relações entre o BES e a Impresa);

4) O caso das contas de Pinochet, com dinheiro do ditador chileno a passar, segundo uma investigação americana, pelo banco português, via Miami;

5) O caso das fraudes na gestão dos CTT, incluindo a mediática venda de um prédio em Coimbra, valorizado em mais de cinco milhões de euros num só dia;

6) A Operação Furacão, megaprocesso de investigação de fraude fiscal;

7) O caso Monte Branco, onde Ricardo Salgado constava da lista de clientes da Akoya, rede suíça de fraude fiscal e branqueamento de capitais;

8) O caso dos 8,5 milhões de euros que Salgado se esqueceu de declarar ao fisco e que teria recebido por alegados serviços de consultadoria prestados a um construtor português a atuar em Angola;

9) O caso da venda das ações da EDP pelo BES Vida, feita dias antes da aprovação da dispersão em bolsa da EDP Renováveis, o que levantou suspeitas de abuso de informação privilegiada;

10) O BES Angola, uma investigação por branqueamento de capitais que acabou por transformar Álvaro Sobrinho, antigo presidente do BESA, num dos inimigos de Ricardo Salgado (o BES, por sua vez, veio acusar Sobrinho de utilizar os jornais da Newshold – o i e o Sol – para ataques pessoais ao presidente do banco);

11) O caso da multa (1,1 milhões de euros) em Espanha, devido a infrações de uma norma para a prevenção de branqueamento de capitais (em 2006, a Guardia Civil já havia feito uma rusga a uma dependência espanhola do BES.».De tudo isto o BdP fez tábua rasa. Só quando a guerrilha entre os membros da família Espirito Santo eclodiu e a confissão pública da existência de contabilidades falsificadas foi conhecida, porque o banco ficou num beco sem saída, não restou outra alternativa ao BdP senão intervir.

 (imagem do Expresso)

Após várias semanas em que se verificou um clima de muita instabilidade no BES, parece que foi encontrada uma solução para o problema, depois de ter sido vetado o nome de Morais Pires. Segundo as mais recentes notícias, Vítor Bento será o próximo presidente executivo do BES.

Vítor Bento foi a primeira escolha de Passos Coelho para ministro das Finanças (antes de Vítor Gaspar). É um reputado economista, com provas dadas e a sua competência não está em causa. É Conselheiro de Estado e considerado muito próximo de Cavaco Silva e de Eduardo Catroga, aliás, fez parte da secretaria de estado do tesouro no último governo de Cavaco Silva. Mais uma vez temos homens de confiança do governo e de Cavaco à frente de um banco privado.

Apesar do governo ter reafirmado insistentemente que não iria imiscuir-se nos assuntos deste banco privado, certo é que a chegada de Vítor Bento pressupõe um reforço da família laranja no BES. Além de Vítor Bento, há ainda a proposta para que Paulo Mota Pinto seja chairman do BES e que João Moreira Rato fique como responsável financeiro do BES.

Recapitulando: um cavaquista como CEO, um ex-deputado do PSD como Chairman, um administrador financeiro da confiança da ministra das Finanças. É caso para dizer que o PSD tomou conta do BES. O Governo trocou, no BES, a família Espirito Santo pela família laranja do PSD. A confusão entre política a finança e os negócios é por demais evidente.

Existe uma máxima em política: o que parece é. E o que parece, aos olhos dos portugueses, é que estas três nomeações para o BES, que vieram da área política do PSD não são inocentes. É um filme que já vimos também no BCP, no BPN ou no BPP. As escolhas levantam algumas perplexidades, mas o tempo encarregar-se-á de mostrar se foram ou não as melhores!