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Narrativa Diária

Não escrever um romance na «horizontal», com a narrativa de peripécias que entretêm. Escrevê-lo na «vertical», com a vivência intensa do que se sente e perturba. Vergílio Ferreira

Narrativa Diária

Qui | 06.02.14

Woody Allen acusado de abuxos sexuais

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Gosto do Woody Allen. Sempre gostei. "Annie Hall", "Os Dias da Rádio", "Vigaristas de Bairro", "Hollywood Ending", "Manhattan", "Vicky, Cristina, Barcelona", "Match Point" “Meia-Noite em Paris", “Para Roma, com Amor”, “Blue Jasmine”... enfim, todos filmes muito bons.

A separação entre Mia Farrow e Allen foi uma das novelas mais  mediáticas da década de 1990 – Allen apaixonara-se pela filha adotiva da atriz com o compositor André Previn, Soon-Yi Previn, então com 19 anos, e o divórcio fez correr rios de tinta. As acusações de abuso sexual sobre a filha Dylan, então com sete anos, tornaram-se uma parte integrante da novela.

A história renasce agora, sendo confirmando numa carta enviada ao jornal New York Times, depois de Woody Allen ter sido  homenageado com um Globo de Ouro - prémio Cecil B. DeMille - pelo conjunto da obra. No entanto, ele nunca compareceu para receber os prémios e já declarou, em entrevistas à imprensa, que não acredita que eles sirvam para muito. O cineasta, apaixonado por jazz, gosta de passar as suas noites a tocar clarinete em Manhattan.

Dylan Farrow, 28 anos, descreveu com pormenores todos os abusos de que foi alvo. A jovem garantiu que mãe, a atriz Mia Farrow, depois de tomar conhecimento do caso rompeu  a ligação com o realizador.

O problema aqui se coloca é o seguinte: de um lado temos um realizador genial, nomeado para 23 Óscares, que graças ao sucesso recente com filmes produzidos em várias cidades europeias (Veneza, Londres, Barcelona, Paris, Roma) é constantemente solicitado para filmar em diversas cidades, inclusivamente em Portugal. Do outro lado temos uma jovem de 28 anos praticamente desconhecida, teve apenas umas pequenas participações em dois dos filmes de Woody Allen,   disfuncional, com distúrbios psicológicos e alimentares, os quais atribui ao trauma vivido na infância e provocado alegadamente pelo pai adotivo,  o qual, diga-se, negou sempre ter cometido qualquer tipo de abuso.

Ora, quando Dylan lamenta a reverência que a indústria cinematográfica presta ao realizador, acusando-a de conivência, está provavelmente a jogar uma carta arriscada. É que dê por onde der, sem provas materiais e  sem o realizador ser formalmente acusado a palavra deles vale sempre mais que a sua.

A ponta do véu desta polémica é levantado pelo próprio jornalista do New York Times responsável pela publicação da carta. Numa nota introdutória, refere que o testemunho Dylan Farrow «levanta questões sobre a legitimidade do prémio de carreira recentemente atribuído ao realizador».

Acresce que Woody Allen, não obstante  continuar na plenitude das suas faculdades mentais e gozar de boa saúde, não vai para novo (tem perto de 80 anos) e mais cedo ou mais tarde vai partir, deixando um património valioso. A não ser que se dê uma mudança imprevisível até lá, a gestão desse património ficará na posse de Soon-Yi Previn,

Pode ser que eu esteja redondamente enganada e que isto não faça muito sentido, mas estou em crer que as motivações que levam Dylan Farrow a desenterrar este caso, 20 anos depois, vão muito para além da honra e da vontade de fazer justiça.

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